Artes visuais Por um mundo macio Trinta anos de pintura sobre toalhas, cobertores, lençóis, veludos e sedas compõem panorâmica de Leda Catunda
por Paula Alzugaray
Leda Catunda - 1983-2008/ Pinacoteca do Estado de São Paulo, SP/ de 15/8 a 11/10
PINTURA MOLE Em "Retrato" (acima) e "Todo pessoal II " (abaixo), Leda Catunda imprime fotografias sobre voile
Quando Leda Catunda surgiu, em 1983, pintando sobre toalhas e lençóis estampadas com figuras infantis, foi imediatamente notada. Olívio Tavares de Araújo, um dos principais críticos de arte do período, escreveu, na Isto é, que Leda figurava entre os mais "articulados e brilhantes" participantes da mostra "A pintura como meio", no MAC USP. "Leda não se tornará apenas uma das artistas mais reconhecidas de sua geração pelo seu talento, mas, igualmente, pela persona que a mídia criou para ela", escreveria o crítico Tadeu Chiarelli em monografia publicada pela CosacNaify. O livro, de 1998, faz jus ao peso e relevância da obra desta artista paulistana nascida em 1961. Mas é surpreendente que até hoje ela não tivesse recebido uma panorâmica em um museu brasileiro. Com 70 pinturas, aquarelas e colagens, a exposição na Pinacoteca preenche essa lacuna.
É verdade que a maneira como ela aplicava tinta acrílica sobre almofadas, tapetes, cobertores, capachos e todo o repertório de tecidos domésticos foi determinante para a sedução midiática de sua produção. Era irresistível e surpreendente o modo como ela relançava o conceito de "pintura figurativa", sem pintar figuras, mas aproveitando padrões de estampas industriais que encontrava nos tecidos apropriados. Ao utilizar como tela um quebra-cabeça com a reprodução de "Ronda Noturna", famoso quadro de Rembrandt, Leda referia-se à banalização da imagem e anunciava sua filiação à arte pop crítica e conceitual de Nelson Leirner, de quem foi aluna.
É fundamental conhecer Leda Catunda para entender a arte contemporânea brasileira, simplesmente porque ela reinventou tudo o que mexeu: da pintura figurativa à fotografia. Nos últimos dez anos, depois de muita pesquisa com materiais "moles" e da invenção de uma "poética da maciez", segundo suas próprias palavras, ela começou a revisão do retrato fotográfico. Suas formas arredondadas hoje contêm impressões de fotos sobre voile como um recurso a mais de uso de imagem nas pinturas. "Gosto de pensar numa poética da maciez quando me refiro ao meu trabalho, considerando que são feitos de tecidos, são moles, projetam volumes macios e possuem formas orgânicas sendo geralmente arredondados.
Acredito que a busca pelo conforto é uma característica natural das pessoas e que envolve assuntos relacionados ao gosto e demandas afetivas. É para isso que eu olho no mundo, para as escolhas que resultam soluções confortáveis que cada um desenvolve em torno de si na eleição de imagens, personagens, mitos e paisagens", diz Leda Catunda.
Roteiros
A paisagem ideal
AMBULANTES EM ESPAÇOS VAGOS/ Centro Cultural Banco do Nordeste, Fortaleza/ até 31/8
Um piquenique no parque, com direito a grama e guarda-sol. Uma piscina de plástico azul cheia d'água e uma boia amarela. Um galo, uma galinha, um cercadinho de arame e um pouco de palha. Luzes coloridas penduradas em uma armação de metal sobre uma mesa de som improvisada. Nomeadas de "kits", essas estranhas instalações - que mais parecem gambiarras fora do lugar - compõem a exposição "Ambulantes em espaços vagos", de Louise Ganz e Breno Silva. "Os kits são programas arquitetônicos feitos para situações como casar, tomar banho, descansar, ler, criar aves, fazer as unhas, bailar. São objetos ambulantes, transportáveis dentro de uma caixa com rodas e com possibilidade de ser instalados temporariamente em qualquer lugar vago da cidade, propiciando lazer, ócio, produção, trabalho", diz Louise Ganz.
Um piquenique no parque, com direito a grama e guarda-sol. Uma piscina de plástico azul cheia d'água e uma boia amarela. Um galo, uma galinha, um cercadinho de arame e um pouco de palha. Luzes coloridas penduradas em uma armação de metal sobre uma mesa de som improvisada. Nomeadas de "kits", essas estranhas instalações - que mais parecem gambiarras fora do lugar - compõem a exposição "Ambulantes em espaços vagos", de Louise Ganz e Breno Silva. "Os kits são programas arquitetônicos feitos para situações como casar, tomar banho, descansar, ler, criar aves, fazer as unhas, bailar. São objetos ambulantes, transportáveis dentro de uma caixa com rodas e com possibilidade de ser instalados temporariamente em qualquer lugar vago da cidade, propiciando lazer, ócio, produção, trabalho", diz Louise Ganz.
Diários de bordo
CINÉPOLIS - BOB WOLFENSON / Museu de Arte Moderna da Bahia, Salvador/ até 6/9
Consagrado na fotografia de moda e estilo, Bob Wolfenson revela uma nova frente de ação: o olhar sobre o cotidiano. Movido pela aquisição de uma câmera Leica digital, o fotógrafo assume, nas 21 imagens inéditas expostas no MAM-Bahia, um trabalho um pouco mais próximo do fotojornalismo. Ao negociar com o curador francês Pierre Devin a ideia de fotografar como se escrevesse um caderno de notas, a Leica se tornou a ferramenta ideal. "A eleição do olhar, e não o tema, é o que guia a produção das imagens.
Não importa o que estou fotografando, mas como", diz Wolfenson. Depois de um ano de registros e quase 100 imagens para selecionar, Devin criou uma linha narrativa. Imagens como a de um taxímetro em Dubai ou a de uma paisagem da estrada Mogi-Bertioga (foto), feitas de dentro do carro, reforçam a referência aos road movies, que inspiraram o curador na edição de uma "caixa-livro-portfólio" e da exposição.
Esse lado autoral de Wolfenson já havia aparecido nas exposições "A Caminho do Mar", com paisagens industriais de Cubatão, e "Encadernação Dourada e Antifachada", com imagens que propunham um diálogo entre o público e o privado. "Sou uma pessoa multidisciplinar, gosto de estar no olho do furacão. Nesse trabalho, sou meu próprio cliente. Essa é uma mudança muito grande e que me dá muita satisfação pessoal. Este é um momento de trânsito para mim."