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Livros
A condessa vampira
A trajetória da aristocrata Elizabeth Bathory, a nobre húngara que assassinava meninas e se banhava no sangue de suas vítimas em busca da beleza eterna

Natalia Rangel

Loucura e arte
Ensaio do fotógrafo turco Mehmet Turgut inspirado na vida de Lady Bathory

Na crescente onda de vampirismo que invade atualmente a literatura, uma personalidade real ganha nova pele como os próprios mortos-vivos das lendas de horror. Alvo de diversas publicações no Exterior e no Brasil, a sofisticada artistocrata Elizabeth Bathory (1560-1615), conhecida como a condessa vampira, tem sua biografia recontada sob diferentes ângulos. Bela, perversa e psicótica, ela nasceu numa família que detinha o poder sobre todo o antigo Reino da Hungria, território que hoje pertence à República Eslovaca. Era considerada uma das mais vistosas jovens de sua estirpe e o seu temperamento instável e autoritário também a tornou personalidade temida nos arredores do castelo Cachtice, onde vivia. Inteligente, soube valorizar a prestimosa educação recebida e falava com desenvoltura o latim, o húngaro e o alemão.

Aos 15 anos, Elizabeth casou-se com o conde Stefan de Bathory, que ampliou ainda mais o seu poder e o seu prestígio ao ser nomeado rei da Polônia. Protegida pelos nobres brasões familiares, Elizabeth sentiu-se livre para então exercer uma outra faceta com a excelência que lhe era peculiar: a de torturadora e assassina em série. Esses atributos a tornariam conhecida em todo o mundo.

Elizabeth cresceu assistindo aos violentos conflitos territoriais (entre turcos e austríacos) e religiosos (católicos e protestantes) e viu, ainda criança, as suas três irmãs mais novas serem violadas e mortas por soldados. Também sofria de epilepsia e de ataques de ira incontroláveis. Adulta, tornou-se uma vilã tão cruel quanto seus algozes. Torturava suas criadas e damas de companhia por qualquer equívoco e em muitas ocasiões teve o apoio de seu marido nessas seções de sadismo.

Em um acesso de raiva teria chegado a abrir a mandíbula de uma serva até que os cantos de sua boca se rasgassem. A fama de vampira surgiu, num primeiro momento, do seu hábito de morder e dilacerar a carne de suas criadas. Mas Elizabeth foi ainda mais longe: ela recrutava meninas, as matava e usava o sangue para se banhar - acreditava que uma banheira com sangue de crianças era a fonte eterna da juventude. Estima-se que Elizabeth tenha assassinado 647 meninas Em janeiro de 1610, após rumores sobre seu comportamento, um grupo liderado pelo seu primo, o conde Thurzo, entrou no castelo e flagrou-a em seu estranho banho.

A vida da condessa Bathory foi cercada de mistérios e a própria nobreza da época procurou esconder tudo que se relacionava às terríveis histórias que já circulavam. Por isso mesmo, surgiram muitos mitos e lendas sobre os horrores praticados por ela e que são ainda farta matéria-prima para a arte. O fotógrafo turco Mehmet Turgut, por exemplo, criou um ensaio a partir de sua história. Há bandas de heavy metal que levam seu nome e dezenas de comunidades no Orkut dedicadas a ela com cerca de sete ou oito mil integrantes.

Castelo de Horror
Ruínas do castelo cachtice, na república eslovaca, residência da condessa. nela, elizabeth Bathory praticava os seus crimes. nesse mesmo local, foi presa em 1610. estima-se em 647 o número de vítimas

No campo da literatura existem diversos romances baseados em sua vida, entre eles "O Legado Bathory", de Alexandre Heredia, recém-lançado no Brasil. A trajetória macabra da condessa rendeu também filmes góticos, de terror e dramas - o mais recente é a produção franco-alemã "A Condessa", protagonizada e dirigida por Julie Delpy e com a participação de William Hurt, que foi apresentada este ano no Festival de Berlim e tem estreia prevista para outubro. "Minha intenção foi fazer algo semelhante a uma tragédia grega, com obsessão, amor, abandono e traição. Paixão. E destino", diz Julie.

De volta aos arquivos históricos, sabe-se que a Justiça na época interveio impedindo que Elizabeth continuasse com os seus crimes - isso depois de ela atrair para o seu castelo uma menina de origem nobre. Consta que todos os funcionários cúmplices dos atos da condessa receberam a pena de morte, e ela acabou condenada a uma espécie de prisão domiciliar: aos 51 anos foi encarcerada num quarto de seu castelo e lá viveu por mais três anos isolada do mundo. Morreu assim. O número contabilizado de vítimas da condessa continuou aumentando após a sua morte - o saldo final hoje aceito é de 647 meninas mortas, muitas delas emparedadas nos porões do castelo.

Condessa Bathory, O Mito

Após quatro séculos, a lúgubre história da condessa continua motivando autores em todo o mundo. Entre os lançamentos e reedições estrangeiras está "Elizabeth Bathory, A Condessa Sanguinária", segundo livro da escritora francesa Valentine Penrose, uma das maiores especialistas nessa personagem. Ela retrata a vampira, por meio de licenças poéticas e boa dose de romantismo, elegendo-a um arquétipo da beleza e do poder femininos. Outro título que está sendo reeditado é "Elizabeth - Drácula era Mulher: Em Busca da Condessa Sanguinária da Transilvânia", de Raymond McNally, um ensaio bem-humorado sobre o suposto parentesco entre a nobre húngara e o vampiro Vlad da Pensilvânia, o famoso conde Drácula.

FOTO: MEHMET TURGUT; RADOVAN BAHNA

 

 

7/8/2009


 
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