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Leonardo Attuch
Ética não se devolve
Se uns merecem ser cassados pelos atos secretos, Arthur Virgílio deveria cair pela cara de pau

attuch@istoe.com.br

Agora, é fácil. Roubou, devolve. Sem pressa, em suaves prestações. É esse o padrão que o senador Arthur Virgílio (PSDB-AM), moralista número 1 do Congresso, pretende inaugurar na Nova República. Virgílio, que pede a cassação do presidente da Casa, José Sarney, também foi pego fazendo estripulias. Recebeu um empréstimo de R$ 10 mil do diretor-geral Agaciel Maia e bancou, com nosso dinheiro, um funcionário fantasma durante 18 meses, que recebeu R$ 210 mil enquanto estudava teatro na Espanha. Flagrado, Virgílio não perdeu a pose. Fez um depósito de R$ 60,6 mil em nome da União e promete pagar o restante em parcelas de R$ 50 mil, à medida que vá vendendo imóveis.

Do alto de sua superioridade moral, Virgílio desafiou seus colegas a fazer o mesmo, como se fosse o mais casto dos senadores. Ocorre que a ética na política é muito parecida com a virgindade. Não se pode hipotecá-la. E, uma vez perdida, não há cirurgia que restitua a pureza original. Quando se escorrega, o procedimento natural de um homem público é reconhecer o erro, penitenciar- se e retirar o time de campo. O inaceitável, que soa como malandragem, é a tentativa de transformar vícios em virtudes. Aliás, se todos pudessem agir como o senador tucano, não haveria mais corruptos no Brasil nem a necessidade de polícia, Justiça ou coisa que o valha.

Bastaria devolver a prazo o dinheiro subtraído a vista, apenas quando os escândalos fossem descobertos. Imagine-se, por hipótese, que o padrão Arthur Virgílio valesse também para o juiz Nicolau dos Santos Neto. Ele venderia o apartamento em Miami e já estaria novamente construindo sedes faraônicas de tribunais. O ex-presidente Fernando Collor teria evitado o impeachment comprando uma nova Fiat Elba a prazo. E Delúbio Soares, José Dirceu, Marcos Valério e muitos outros personagens da cena política brasileira não estariam enfrentando tantos processos na Justiça.

O que a moral virgiliana escancara é muito simples. A atual crise do Senado não tem absolutamente nada a ver com ética ou interesse público. Trata-se, pura e simplesmente, de uma guerra política entre gangues distintas. A forma mais simples de compreendê-la é enxergar o Senado como uma gigantesca boca de fumo numa favela carioca, disputada por bandos rivais. Conquistar o território é essencial para uma disputa ainda mais importante: a do Palácio do Planalto. E se uns merecem ser cassados por atos secretos, outros têm que ser cassados pela cara de pau. O problema do Brasil, definitivamente, não é a ética ou a falta dela, mas sim os éticos que se apropriam da causa.

 

 

31/7/2009


 
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