Artistas costumam descansar no início da semana. Menos o diretor cearense de teatro Aderbal Freire-Filho. Como por milagre, ele conseguiu passar toda a segunda-feira 27 sem comandar um ensaio. Foi a primeira vez que isso aconteceu neste ano. E dá uma ideia de como é requisitado. "No começo do dia achei legal não ter de ir ao teatro, mas logo fiquei meio estranho. E estou sentindo um vazio", diz o diretor. Nesses últimos tempos, Aderbal, 68 anos, se entregou completamente ao seu ofício.
O resultado está nos palcos, em três espetáculos. Outra peça de sucesso, "Hamlet", acabou a turnê nacional na semana passada. Em São Paulo, está em cartaz a premiada "As Centenárias" e, nos palcos cariocas, ele acabou de estrear duas produções: "O Continente Negro" e "Moby Dick". A variedade de espetáculos confirma o constante desejo das estrelas em trabalhar com Aderbal. "Virou meu mestre", diz Wagner Moura, protagonista de "Hamlet". "É um poeta", afirma Chico Diaz, que encabeça o elenco de "Moby Dick". Nas outras peças, ele dirigiu Débora Falabella, Yara de Novaes, Andréa Beltrão e Marieta Severo, que é sua namorada há quatro anos.
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Aderbal tem três novos projetos engatilhados, mas precisa antes se recompor do desafio de montar "Moby Dick", uma idéia que deixou espantado Chico Diaz, antigo parceiro convidado para ser o protagonista. "Devem ter pensado que eu estava louco", diz o diretor. Nem tão louco, mas corajoso, no mínimo. Encenar a história de Herman Melville, em que o capitão Ahab persegue obsessivamente pelos oceanos a grande baleia branca que lhe arrancou a perna, não parecia plausível para qualquer palco, muito menos um pequeno como o do Teatro Poeira, tocado por Marieta e Andréa."Não desisti porque acredito no poder do teatro", afirma.
Como a peça não tem efeitos especiais, o diretor cearense imaginou situações que estimulassem o público a visualizar o barco Perquod, os oceanos e também a baleia. "Não sou um efeitista", diz. A ação nos botes é sugerida por meio dos movimentos de livros; a grande baleia é simbolizada ora pelo próprio Chico Diaz (que também interpreta Ahab), ora por um pedaço de pano. Para chegar a essa concepção, Aderbal e os atores ensaiaram por cinco meses: "Houve momentos em que achei que não tinha saída."
Voz mansa, brincalhão e delicado no trato com os atores, ele é hoje uma preferência nacional. Os projetos se multiplicam à sua frente. Estão na fila "Macbeth", de William Shakespeare, uma releitura de "Orfeu" e um trabalho específico que não lhe sai da cabeça: "É uma peça que escrevi. Vou dirigi-la e também atuar nela." O título já está definido: "Depois do Filme". Mas ele nem imagina quando poderá se dedicar à produção. "Quando temos compromisso com os outros as coisas andam mais rápido", diz. A frase é uma senha: quer dizer que Aderbal não consegue viver longe do trabalho. Empatou: as artes cênicas também parecem não viver sem ele.