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"A internet não vai mudar a política"
Segundo especialista, baixo acesso e descrença nos políticos diminuem força da web na campanha eleitoral brasileira

Por Ana Carolina Saito

Fotos: julia moraes/ag. istoé; Ricardo Stuckert/PR
BARREIRA CULTURAL Para Vera Chaia, a mobilização no Irã e o apoio a Obama pela rede dificilmente se repetiriam no Brasil

Além dos tradicionais palanques, os candidatos que participarão das eleições no próximo ano se preparam para o embate no mundo virtual. A coordenadora e pesquisadora do Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política (Neamp) da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUCSP), professora Vera Chaia, alerta que a corrida já começou fora e dentro da internet, que será usada de forma intensiva por marqueteiros políticos e militantes.

Por outro lado, a cientista política pondera que há valorização exagerada da internet por parte do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ao limitar a campanha eleitoral online. Ela lembra que o acesso à rede mundial de computadores no Brasil, assim como a participação política dos cidadãos, é ainda restrito se comparado a outros países. "A internet não vai mudar a política brasileira", diz a professora, que, nas eleições de 2006, se dedicou à análise das comunidades políticas na rede social Orkut.

Em seu pós-doutorado, pela Universidad Rey Juan Carlos, ela acompanhou, na Espanha, o uso da internet na disputa presidencial de março de 2008 na qual foi reeleito José Luiz Zapatero. A experiência resultou no projeto de pesquisa "Uso das novas tecnologias na ação política no Brasil e na Espanha". Nesta entrevista à ISTOÉ, ela analisa as estratégias políticas na web.

ISTOÉ - A ação política está se intensificando na internet?
Vera Chaia - De 2006, época das eleições no Brasil, para 2008 na Espanha, ocorreu um avanço muito grande. Lá, além dos candidatos terem se apropriado, e muito melhor, da internet, construindo formas de interação efetivas entre eles e seus possíveis eleitores, tivemos a ação das televisões espanholas, que abriram espaço para os cidadãos se manifestarem. A TVE, a televisão pública espanhola, colocava no ar perguntas de eleitores feitas para os candidatos, via You- Tube, no dia do debate. No caso dos candidatos, tivemos formas de atuação muito diferentes. Um deles, por exemplo, construiu um avatar no Second Life.

ISTOÉ - A campanha presidencial de Barack Obama pode ser considerada um marco nessa evolução?
Vera - A estratégia foi diferente das adotadas nas eleições espanhola e brasileira. O Obama investiu muito na internet porque havia grandes vantagens. Primeiro, é muito barato e tem um alcance muito maior se os cidadãos estiverem habituados a navegar em sites políticos. Porém, o aspecto mais inovador da campanha de Obama é que praticamente toda a arrecadação foi feita via internet. Mesmo depois das eleições, havia venda de camisetas, souvenirs e ainda um link para fazer doações.

ISTOÉ - Esse modelo pode se reproduzir no Brasil em 2010?
Vera - O hábito do americano é muito diferente do do brasileiro. O uso da internet e a participação política dependem muito da cultura de cada país. O Brasil é um país com cerca de 45 milhões de pessoas que acessam a internet, mas não os sites políticos. Os sites de entretenimento e e-mail são mais visitados. No caso do Obama, os simpatizantes fizeram vídeos manifestando apoio ao candidato, eram pessoas anônimas que decidiram se manifestar.

Fotos: julia moraes/ag. istoé; Ricardo Stuckert/PR

"O blog do Lula pode levantar algumas questões que devem ser pensadas com o objetivo de produzir efeito positivo para o governo"

ISTOÉ - E como deve se comportar o internauta brasileiro?
Vera - No Brasil é diferente. Estamos acompanhando escândalos que fazem com que a população tenha uma desconfiança muito grande da política e dos políticos. O que vai acontecer é o uso e abuso da internet pelos marqueteiros, assessores de campanha, militantes. Os blogs e comunidades online já começaram a campanha, mas isso limitado ao universo dos partidos, candidatos e simpatizantes. Em 2006, fiz uma análise de uma comunidade do Orkut, a "Casa da Mãe Joana", que pregava o voto nulo ou a abstenção. Havia uma polêmica: uns defendiam a abstenção, ou seja, negavam a participação política; outros, o voto nulo, que seria uma forma de se manifestar, mas ainda participar do processo. A participação se dará nesses dois níveis: ou simpatizantes e pessoas ligadas aos partidos ou manifestações contra qualquer tipo de envolvimento.

ISTOÉ - No Irã, a internet foi usada para driblar a censura e mobilizar a população. É possível pensar em um movimento parecido no Brasil?
Vera - O mais relevante foi que todas as críticas foram divulgadas pela internet e as grandes manifestações que ocorreram no Irã foram registradas principalmente pelo celular. É muito diferente no Brasil. Se você convocar qualquer manifestação via internet, não terá resultado como no Irã, já que lá existe uma oposição ao regime dos aiatolás que faz com que haja uma articulação. Existe um cerco em relação à internet no Irã, que inviabiliza o acesso a informações diretamente do país. Na China, houve um protesto nos 20 anos do massacre da Praça da Paz Celestial e essa manifestação só pôde ser acompanhada pela internet.

ISTOÉ - O movimento "Fora Sarney" no Twitter já conta com sete mil seguidores. Recentemente, o jornal britânico "The Guardian" publicou um artigo sobre a campanha online "Greve do Bigode". Como avalia esses protestos?
Vera - A entrada da internet é extremamente positiva, pressiona mais pela resolução de um problema. É extremamente benéfico. Mas essa manifestação não vem para o mundo real. Não consegue mobilizar. As "Diretas Já" e o "Fora Collor" foram manifestações feitas sem internet. Hoje, existe uma facilidade de convocação pela internet, mas ela não ocorre e não será atendida devido à nossa cultura. É muito cômodo se manifestar pela internet, é mais asséptico, já que você não suja as mãos, não corre, como aconteceu anos atrás. Além disso, tem o lado do descrédito da vida política brasileira, de um certo ceticismo em relação à política, à possibilidade de mudanças na nossa sociedade.

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31/7/2009


 
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