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Cultura  
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Exposição
Presente de rei
Belo Horizonte mostra tapeçarias francesas que serviram de cartão de visitas da corte

Ivan Claudio

FLORES E FRUTOS A tapeçaria "O Índio a Cavalo", de 1690, mostra lhamas e trajes estranhos ao Nordeste brasileiro. Mas é fiel à flora local

Desde que o mundo é mundo, presentear aliados políticos é um gesto comum da diplomacia. No século XVII, por exemplo, num arroubo de gentileza o conde holandês Maurício de Nassau ofereceu ao rei Luís XIV da França oito telas de Albert Eckhout, um dos artistas que o acompanharam durante os sete anos de seu governo de parte do Nordeste. Ele apresentou o conjunto como "raridades" retratando em tamanho natural a flora, a fauna e os tipos brasileiros que poderiam ser usados na produção de tapetes, uma excelência francesa.

O Rei Sol seguiu o seu conselho e mandou as pinturas para serem copiadas nas manufaturas da corte, a mais famosa delas chamada Gobelins. Durante muitos anos, os tapetes exóticos e luxuriantes nascidos dessas telas serviram de cartão de visitas do governo francês junto aos nobres estrangeiros, entre eles o czar da Rússia, o imperador da Áustria e o rei da Dinamarca. Desde a quartafeira 15, esse teatro da diplomacia pode ser reconstituído na mostra "Tapeçaria Francesa - Patrimônio e Criação - De Eckhout aos Dias de Hoje", em cartaz no Museu de Artes e Ofícios, em Belo Horizonte. Sediada na antiga estação ferroviária da cidade, a construção de estilo eclético, transformada há três anos em sala de exposições, ganhou ares de realeza europeia com as belas estampas em lã e seda de cerca de cinco metros de altura.

Essa é a primeira vez que as 20 obras saem da França. Elas pertencem às Coleções do Mobiliário Nacional, o órgão que cuida do acervo de todos os palácios e residências oficiais da França. Como o museu mineiro é voltado para o trabalho pré-industrial, fez-se questão de que o processo de produção de uma tapeçaria ficasse claro para o visitante. "Essa mostra dialoga com o nosso acervo, que inclui o ofício da tecelagem. Temos, inclusive, esse tipo de tear aqui", diz Ângela Gutierrez, presidente do Instituto que dirige o museu e antiga dona da coleção de objetos, ferramentas e utensílios. Mostrar tapetes originados das pinturas de Eckhout, conhecidos como Tapeçaria das Antigas Índias, não é novidade. O Masp, por exemplo, tem cinco deles. Mas essa é a primeira vez que se exibe, junto com a tapeçaria, o chamado cartão - ou seja, a pintura que deu origem à estampa. Sem falar que os esses Gobelins têm cores e padronagens impressionantes.

EXOTISMO A obra "A Negra Carregada numa Rede", de 1740, da série "Novas Índias", retrata uma situação bem ao gosto europeu da época

Ao subir as escadarias que dão para as salas expositivas, o impacto é imediato. Em paredes opostas de sete metros de altura encontram-se as obras "O Índio a Cavalo" e "O Cavalo Isabel", ambas feitas entre 1689 e 1690 a partir de pinturas de Eckhout. A curadora Célia Corsino explica como esses bordados eram feitos: "O tecelão ficava atrás do tear e o cartão, que tinha sempre tamanho da tapeçaria, era refletido em um espelho." Isso explica, por exemplo, por que a obra "O Combate dos Animais", tecida entre 1741 e 1743 a partir de um modelo do pintor Alexandre-François Desportes, mostra a composição em sentido oposto à do cartão.

Nessa parte da exposição (que se estende até a produção atual das manufaturas, com obras assinadas por artistas contemporâneos como o chileno Roberto Matta), vale um esclarecimento. Com o tremendo sucesso mundial da série das "Antigas Índias", Desportes foi contratado para fazer uma nova versão, chamada "Novas Índias". E ele soltou a imaginação. Ao copiar uma obra de Eckhout que mostrava um rei carregado por dois mouros, ele colocou na rede uma mulher negra, tema que remete mais a uma nobreza africana que à realidade brasileira. Servia, assim, à demanda de exotismo que tanto fascinava as cortes europeias naquele momento. Era o estrangeiro pintando o Brasil para o estrangeiro ver.

A ARCA DE MAURÍCIO DE NASSAU

O visitante da mostra vai se perguntar, e com razão: por que na tapeçaria "O Cavalo Isabel", de 1690, um elefante aparece em primeiro plano, quando se sabe que esse animal não era natural do Brasil? Explica-se: no seu palácio em Friburgo (à dir.), na antiga Recife, o conde holandês Maurício de Nassau (à esq.) tinha um zoológico e, nele, um elefante. Nassau trouxe para o Brasil cientistas e artistas como o holandês Albert Eckhout para documentar a fauna e a flora nacionais. Daí a profusão de animais que aparecem nos tapetes usados para aquecer os palácios: tamanduás, antas, javalis, tucanos, toda sorte de peixes e, claro, muitos papagaios. A maior parte desses animais foi catalogada por Eckhout nos chamados "Theatri Rerum Naturalium Brasiliae" (417 desenhos), e exibe a mesma aparência nas obras feitas na Manufatura Real dos Gobelins, agora em exposição.

 

 

16/7/2009


 
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