ISTOÉ - Independente
   
  EDIÇÃO ATUAL
  EDIÇÕES ANTERIORES
  ESPECIAIS
   
   
  CAPA
  REPORTAGENS
  CIÊNCIA & TECNOLOGIA
  BRASIL
  COMPORTAMENTO
  MEDICINA & BEM ESTAR
  MEIO AMBIENTE
  ECONOMIA E NEGÓCIOS
  CULTURA
  COLUNISTAS
  BRASIL CONFIDENCIAL
   
   
  EDITORIAL
  ENTREVISTA
  A SEMANA
  GENTE
  EM CARTAZ
  OPINIÃO & IDÉIAS
  SEU BOLSO
  BASTIDORES
   
   
  FALE CONOSCO
  EXPEDIENTE
  ANUNCIE
  ASSINE ISTOÉ
  LOJA 3
   
   
 



Entrevista  
Imprimir
 
A pior mãe da América
Rotulada por deixar o filho de 9 anos andar sozinho no metrô de Nova York, ela diz que os pais, hoje, são superprotetores

Por Adriana Prado

Fotos: Divulgação; Shutterstock
CONSEQUÊNCIA “Uma criança que acha que não pode fazer nada sozinha, no fim das contas não pode mesmo”, diz ela

Quando a escritora americana Lenore Skenazy, 49 anos, contou aos leitores de sua coluna no jornal The New York Sun que ela e o marido deixaram o filho, Izzy, então com 9 anos, atravessar a cidade sozinho de metrô, esperava reações indignadas – mas nem tanto. Foi sabatinada em alguns dos principais programas de tevê dos Estados Unidos e acabou rotulada de “a pior mãe da América” por ter exposto o menino ao que foi considerado um grande risco. Pouco mais de um ano depois, ela é a famosa criadora do movimento Free Range Kids (algo como crianças independentes) e lança um livro com título idêntico. Ambos batem na mesma tecla: as crianças precisam de mais autonomia. “Essa ideia de que estamos sendo bons pais ao tratar nossos filhos quase como inválidos não faz nada bem a eles”, afirma. Isso, frisa, é diferente de zelar pela segurança. Lenore, por exemplo, obriga seus dois filhos, de 11 e 13 anos, a usar capacetes quando andam de bicicleta, recrimina-os se atravessarem a rua sem olhar para os lados e não permite que entrem numa piscina sem a presença de um adulto.

ISTOÉ – O que pretendia ao deixar seu filho andar de metrô sozinho aos 9 anos?
Lenore Skenazy – Queria estimular a independência dele. Não temos carro e andamos muito de metrô e de ônibus em Nova York. Ele estava familiarizado com esses transportes e perguntava por que não poderia andar sozinho. Eu e meu marido conversamos e decidimos levá-lo a um ponto da cidade, onde o deixamos. Ele teria que usar o metrô e um ônibus para chegar em casa. Se tivesse algum problema, poderia pedir ajuda a alguém. Confiávamos nele. Sentíamos que estava preparado. Quando chegou em casa, estava extremamente feliz. Sentia-se capaz. Isso é algo que os pais deveriam celebrar.

ISTOÉ – Por que acha que houve tantas reações indignadas à sua decisão?
Lenore – As coisas mudaram muito em termos do que achamos necessário fazer para manter nossos filhos seguros. Um exemplo: só 10% das crianças americanas vão para a escola sozinhas hoje em dia. Mesmo quando vão de ônibus, são levadas pelos pais até a porta do veículo. Chegou a ponto de colocarem à venda vagas que dão o direito de o pai parar o carro bem em frente à porta na hora de levar e buscar os filhos. Os pais se acham ótimos porque gastam algumas centenas de dólares na segurança das crianças. Mas o que você realmente fez pelo seu filho? Se o seu filho está numa cadeira de rodas, você vai querer estacionar em frente à porta. Essa é a vaga normalmente reservada aos portadores de deficiência. Então, você assegurou ao seu filho saudável a chance de ser tratado como um inválido. Isso é considerado um exemplo de paternidade hoje em dia.

ISTOÉ – Como se pode dar mais independência às crianças?
Lenore – A mensagem que você tem de passar para os seus filhos é a de que você os ama e vai ensiná-los a se cuidar no mundo. Se você dá a eles as ferramentas para serem independentes, os ensina a cruzar a estrada da vida em segurança. Uma criança que acha que não pode fazer nada sozinha, no fim das contas não pode mesmo. Toda a ideia da autoconfiança e da autoestima não vem com a ajuda dos pais. Você tem que fazer coisas sozinho para descobrir quem você é.

ISTOÉ – Em que idade se deve começar a dar mais liberdade?
Lenore – Depende, mas um bom parâmetro, que adotei em casa, é a sua própria infância. Se você fazia determinada coisa com 8, 10 ou 12 anos, deve deixar seu filho fazer a mesma coisa na mesma idade. Conheço mães que quando tinham 10, 12 anos eram babás e cuidavam de crianças de cinco anos ou até de recém-nascidos. Eram dignas de confiança nessa idade. Hoje os pais não deixam os filhos de 12 anos sozinhos nem para ir ao supermercado. Em uma geração regrediu-se tanto a ponto de acreditarmos que uma criança de 12 anos é incapaz de cuidar de si própria?

ISTOÉ – E quando a vizinhança é perigosa?
Lenore – Se você se sente inseguro fora de casa por razões reais, não porque ouviu na tevê que uma criança foi sequestrada em Portugal ou em Aruba, deve levar isso em consideração na hora de mandar ou não seu filho para a escola sozinho. Mas há outros meios de estimular a independência. Você pode pedir que a criança faça o jantar. Ela pode também cuidar dos irmãos mais novos enquanto os pais vão ao cinema. Outra oportunidade de fazê-los sentir-se mais crescidinhos é estimular o trabalho voluntário, como fazer visitas a um asilo, porque eles vão se sentir mais responsáveis.

Fotos: Divulgação; Shutterstock
"O celular às vezes substitui a presença dos pais. Facilita para os filhos continuarem dependendo de nós e para continuarmos controlando-os”

ISTOÉ – Você nunca foi uma mãe superprotetora?
Lenore – Fui, sim. Quando meus filhos nasceram, morávamos num apartamento de um quarto só, mas comprei uma babá eletrônica. Eu não precisava dela para ouvir o bebê chorando no quarto, mas a usava mesmo assim. Por que eu comprei? Porque eu achava que precisava. Todos tinham uma babá eletrônica. Hoje em dia as pessoas compram babás eletrônicas com câmera e infravermelho. Nem a criança que dorme em seu quarto está segura?


ISTOÉ – Esse medo é maior nos Estados Unidos?
Lenore – Não. Na Inglaterra, por exemplo, chegou-se a ponto de que, se alguém quer ser professor infantil, líder de colônia de férias ou mesmo o responsável pelos bolinhos servidos nas festas escolares, essa pessoa tem de passar por uma checagem de antecedentes criminais, para que todos se certifiquem de que não é um pedófilo. Você tem que provar que não é um predador de crianças antes de poder levar bolinhos para a sala do seu próprio filho. Essa perspectiva está contaminando o mundo todo. Ironicamente, quando estimulo os pais a dar mais liberdade aos filhos, pretendo justamente deixá-los mais seguros.

PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>
 

16/7/2009


 
Receba as informações de Isto É semanalmente em seu e-mail:
 
 
 
 
 
 




 
 
 
 
 
   
 
Imprimir

   
   
   

© Copyright 1996-2008 Editora Três
É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.

ContentStuff - Media Solutions