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Entrevista  
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Felipe Camargo
"Não sou ex-drogado. Sou vencedor"
Após 17 anos, o ator volta a protagonizar uma minissérie da Rede Globo e conta como se livrou das drogas

por Renata Cabral

ISTOÉ - Sofreu preconceito?
Camargo - Existe um julgamento muito severo com quem usa drogas. Eu era um cara jovem que circulava, frequentava a noite como todo mundo. Só que, na época em que era o primeiro ator da minha faixa etária na Rede Globo, o sucesso incomodava e o assédio foi muito maior. Eu não merecia essa carga toda em cima de mim. O que acho realmente importante é que vivi isso tudo e parei.

ISTOÉ - Há quanto tempo?
Camargo - Estou há 13 anos em recuperação. São 13 anos, não é da noite para o dia. Demandou muito esforço, autoconhecimento, boa vontade, humildade. Eu sei o valor disso e ninguém me tira esse valor. As pessoas gostam do rótulo de ex-drogado. Eu não sou mais viciado, sou um vencedor. Sei quanto é difícil porque vejo que a grande maioria das pessoas que se envolvem dessa forma com drogas não consegue voltar.

ISTOÉ - A chegada de Gabriel tem a ver com essa volta por cima?
Camargo - Sem dúvida. O filho dá outra dimensão à vida, um senso de responsabilidade muito grande. É aquela história da máscara de oxigênio que cai do teto do avião. Você bota primeiro em você para, depois, poder botar no seu filho. Ou seja: temos de cuidar de nós mesmos para poder cuidar de nossos filhos. Eu crio meu filho há 12 anos. Acompanho o crescimento dele. Hoje, me incomoda a forma como a bebida é tratada. Parece um sorvetinho. Álcool é uma droga.

ISTOÉ - O sr. e seu filho conversam sobre isso?
Camargo - Sobre tudo o que vai aparecendo. Ele não fuma e não bebe. Também não sei se ele me conta tudo. Mas esse é o lado positivo de minha geração: porque experimentamos praticamente tudo, vivemos bastante e temos propriedade para falar ou detectar algo de estranho no comportamento de nossos filhos. Não sou um exemplo de pai, ele vê minhas imperfeições. Acho que ele é muito melhor do que eu. Mas, de alguma maneira, ele vê um exemplo em mim. De alguém que lutou e venceu. Os filhos aprendem primeiro pelo que veem, depois pelo que escutam.

ISTOÉ - Ainda frequenta o Narcóticos Anônimos?
Camargo - Frequento porque gosto, salvou minha vida. Visitei o grupo de Los Angeles, nos Estados Unidos, quando estive lá. É importante ir às reuniões para ver a dimensão do problema. Não sou um caso isolado.

ISTOÉ - Quando notou que as drogas passaram de curtição a dependência?
Camargo - A partir do momento em que vi que não estava me fazendo bem e não conseguia parar. O primeiro passo é admitir que se está perdendo o controle.

ISTOÉ - É a favor da descriminalização das drogas?
Camargo - Sim, mas acho que teria de partir de países mais avançados, porque liberando apenas no Brasil não sabemos quais poderiam ser as consequências. O País poderia virar uma rota de tráfico para a Colômbia, por exemplo. Por outro lado, com a descriminalização, a polícia poderia parar de se preocupar com os usuários e perseguir mesmo os traficantes.

ISTOÉ - Uma das consequências do tráfico de drogas é a violência nas grandes cidades. Já foi vítima da criminalidade no Rio?
Camargo - Tenho sorte. Fui assaltado apenas uma vez, em 1983. Acho que a salvação do Rio é a especulação imobiliária. As encostas são os lugares mais caros para se viver em qualquer lugar do mundo. Quem vive em favelas deveria ser bem indenizado pelo terreno, para mudar para outro lugar. Claro que a maioria das pessoas que mora lá é honesta. Mas é um esconderijo para o mundo do crime e das drogas. Na verdade, teria de haver uma mudança geral, e penso numa coisa que não seja violenta. Acho que tem de ser bem estudado. Para mim, o mais revoltante no Brasil é a imunidade parlamentar. A reforma política é a mais necessária. Eles levam o seu dinheiro e a sua fé, roubam o seu dinheiro e traem a sua fé. E lá ainda é o celeiro dos grandes traficantes, porque sabemos que as grandes conexões passam pelo poder.

ISTOÉ - Qual era o motivo das brigas entre o sr. e Vera Fischer?
Camargo - Por que os casais brigam? Porque são duas pessoas que estão juntas, são dois mundos diferentes que têm de se adequar. A Vera é uma pessoa de quem gostei muito, eu a quero bem, é mãe do meu filho. Buscamos ser felizes, ela com a vida dela, eu com a minha vida. Estamos em acordo com a guarda de Gabriel há três ou quatro anos.

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3/7/2009


 
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