Ouvi falar do filósofo Paulo Arantes depois que a imprensa repercutiu réplica do compositor Caetano Veloso à tese da "brasilianização do mundo", que o intelectual da USP defende e propaga. Assumo a minha ignorância a respeito da literatura sociológica no Brasil. É que em minha opinião a grande sociologia brasileira, ou ao menos a mais eficaz, foi escrita por nossos compositores. Penso que não existe maior sociologia que a canção brasileira. Dorival Caymmi, Nelson Cavaquinho e Waldick Soriano explicam o Brasil mais que qualquer acadêmico soterrado por livros de Adorno e Hegel.
A tese da "brasilianização" corrobora o pensamento colonizado dos que só têm olhos para as mazelas do malfadado "caráter brasileiro", que não conseguem ver que da barafunda social e moral que formou o Brasil saíram também nossos grandes feitos. Nossa riqueza cultural e humana advém disso - o futebol e a música são exemplos óbvios e imensos, mas não só.
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Da improvisação que forjou nosso espírito nasceram obras fantásticas e belas, isso é inegável. Como é inegável que essa gênese nacional canhestra gerou coisas deploráveis, e a atuação dos nossos políticos hoje é um exemplo que se impõe, lamentavelmente. E tudo acaba por cair na conta do famigerado "jeitinho brasileiro", coitado. Digo isso porque mesmo algumas "terríveis" façanhas brazucas, como a favela, sempre associada ao que de pior existe - bandidagem, pobreza extrema, tráfico de drogas -, se olhada por outro viés, e com olhos menos hostis, pode ser vista como um milagre da criatividade, da capacidade de improvisação numa perversa guerra de sobrevivência.
E o que diz a tese? Que o Brasil estaria exportando a "zona", contaminando negativamente as culturas tidas como superiores em termos de civilidade, "favelizando" o mundo. Não leva em conta que os grandes países europeus só agora vivem um forçoso fluxo imigratório, coisa que o Brasil conhece desde sua torta origem, e é por isso que nossa formação foi tão caótica quanto natural. Não à toa, a Europa vive uma era de grande convulsão social e racial, por conta da tardia emigração dos filhos de suas colônias, que desorganizaram a ordem desses países.
Como conviver com isso agora, com o desmantelamento de sua integridade cultural, de sua alardeada ética civilizatória, quando os "bárbaros" ameaçam seu império? Estou certo de que o Brasil pode ensinar ao mundo mais do que apregoa tão pernóstica tese.
Uma divagação: o Brasil tem, entre incontáveis mazelas, um notório racismo. Vez ou outra presenciamos algumas atrocidades racistas, mas nada que se assemelhe à atuação de uma Ku Klux Klan, quando pendurava negros em árvores e linchava-os em praça pública. Ninguém há de negar que o convívio racial no Brasil é algo sob certo controle e, em algumas regiões, um exemplo de instável mas autêntica harmonia.
Uma hipótese delirante: se a Áustria fosse acometida de um súbito empobrecimento extremo, possivelmente ninguém teria a ideia de construir favelas. Talvez fizessem bunkers de sobrevivência, semelhantes àquele em que Josef Fritzl manteve a filha em cativeiro enquanto a estuprava sem-cerimônia durante 24 anos.
Pensando bem, apesar da torcida contra de intelectuais e pensadores, só posso concluir que o brasileiro ainda é um povo com uma saúde mental (e também social e sexual) invejável.
Zeca Baleiro é cantor é compositor