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Economia & Negócios  
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Colapso no mercosul
O Brasil cede ao protecionismo da Argentina e comércio com vizinho cai 36,2% em 2009

Adriana Nicacio

FOTO: MARCELLO CASAL JR./ABR
BARREIRAS Embarques de alguns produtos na fronteira argentina têm levado em média 150 dias

Desde a sua criação há 18 anos, o Mercosul sempre foi sustentado pelas relações comerciais entre Brasil e Argentina, as duas maiores economias do bloco. Agora, com a relação entre os dois países descendo a ladeira, o futuro do Mercosul está ameaçado. No primeiro trimestre, a Argentina passou de segundo para terceiro destino dos produtos brasileiros, atrás da China e dos Estados Unidos. As exportações brasileiras para a Argentina caíram 44,2% de janeiro a maio, em comparação ao mesmo período do ano passado, e a corrente de comércio entre os dois países sofreu uma redução de 36,2% em 2009. De acordo com o embaixador Rubens Barbosa, do grupo de análise da conjuntura internacional da USP, além da crise internacional e das barreiras comerciais erguidas pelo governo de Cristina Kirchner, os argentinos passam por uma severa restrição de crédito. E a valorização do real torna os produtos industrializados brasileiros menos competitivos. “A combinação desses fatores beneficia todos os nossos competidores e, em especial, a China”, explica o embaixador, que vê o Mercosul fragilizado.

Com as barreiras alfandegárias, o governo argentino fere os princípios do Mercosul, alijando seus tradicionais parceiros. Os embarques de calçados na fronteira Brasil e Argentina têm levado em média 150 dias, mesmo com a determinação da Organização Mundial do Comércio (OMC) de que as licenças sejam dadas no máximo em dois meses. No início do mês, a Argentina se comprometeu a liberar as mercadorias dentro do prazo, desde que o Brasil limite as exportações a 15 milhões de pares de sapato por ano, até 2011. Com isso, os calçadistas brasileiros, que detinham 60% do mercado e exportaram 18,5 milhões no ano passado, veem sua fatia cair para 42% e a da China subir de 38% para 54%.

Há vários casos semelhantes porque 14% das exportações do Brasil para a Argentina são afetadas por licenças não automáticas, exigidas de setores como têxtil, linha branca e móveis. Para entrar na Argentina esses produtos precisam de autorização do governo, mas os pedidos têm sido engavetados com frequência. “No caso do setor têxtil, eles chegam a esperar que a moda passe para liberar nossos caminhões”, conta o secretário de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Welber Barral. Há prejuízos também na venda de móveis, que será reduzida em 35% neste ano.

Nessa mesma época, no ano passado, o Brasil já tinha exportado para a Argentina mais de US$ 1 bilhão em automóveis de passeio. Mas de janeiro até agora não vendeu sequer US$ 600 milhões. Além das medidas protecionistas, a Argentina também está sofrendo fortes efeitos da crise, com a encolhimento de seu mercado consumidor. A demonstração mais visível é a queda de 55,7% na produção automotiva no país e de 12,2% na produção industrial, segundo o último dado oficial divulgado em abril. Se a indústria automotiva brasileira consegue compensar as perdas com a demanda interna incentivada pela redução do IPI, outros setores têm de buscar novos mercados. Depois que as vendas para a Argentina caíram 40%, os fabricantes de celulares começaram a apostar no México e na retomada da economia americana. O mercado argentino também era o principal destino de máquinas agrícolas, mas agora enfrenta a pior seca dos últimos 50 anos. No setor de plástico, as exportações não param de cair. As perdas superam 30%.

Os motivos são diversos, mas tudo indica que o fluxo de comércio entre Brasil e Argentina jamais será o mesmo. O que vale também para o Mercosul. “As barreiras são mais uma evidência do desrespeito ao bloco. E o governo brasileiro, em sua política externa de generosidade, não está interessado em cobrar nada dos argentinos”, critica Barbosa. Para o diretor de comércio exterior da Abimaq, Nelson Belduque, que acaba de cumprir uma agenda de negócios em Buenos Aires, o pior de tudo é que se abre um flanco para a invasão de produtos chineses. “Precisamos criar uma proteção contra a China porque sua estrutura de custos é muito inferior à do restante do mundo”, adverte.

FOTO: MARCELLO CASAL JR./ABR

 

 

12/6/2009


 
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