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Como lula driblou o destino
Na infância, ele escapou da mordida de uma jumenta e de ser deixado na estrada na viagem a São Paulo. Na juventude, pegava o paletó emprestado de um amigo para ir aos bailes. E ficou três anos deprimido com a morte da primeira mulher

Por Alan Rodrigues

PAIXÕES Lula no time da Vila Carioca

Olhando para o passado, o presidente acha que sua infância foi roubada pela miséria e guarda mágoas do pai, um ensacador do porto de Santos. "Ele era muito ignorante. Levantava cedo, tomava café, comia o pedaço de pão dele. Depois pegava o restante e botava numa lata em cima do armário e ninguém podia comer. Coisa que um pai, um ser humano normal, fica sem comer para dar para o filho", conta.

Pior que a ignorância eram os maus-tratos. Aristides dividia a semana entre as duas famílias e repartia entre os filhos iguais doses de violência. Ir à escola, por exemplo, era motivo para surra. Ele achava que homem tinha só que trabalhar. Certa vez, depois de espancar um dos filhos, o Frei Chico, até a criança urinar nas calças, Aristides, partiu para cima de Lula.

"Quando ele veio bater em mim, minha mãe não deixou. Aí ele deu uma mangueirada na cabeça dela e isso foi o começo da separação." Dona Lindu avisou que ele não a veria mais e, mesmo uma década depois, quando Aristides foi a São Paulo a convite de um filho, ela se trancou num quarto para não encontrá-lo.

ISTOÉ ASSISTIU A TRECHO DO FILME COM EPISÓDIOS DESCONHECIDOS DA INFÂNCIA E JUVENTUDE DE LULA

Ao lado da irmã Maria, com calçado emprestado e no dia do casamento com Lourdes, que morreu grávida de nove meses com hepatite

O rompimento do casal foi o grito de liberdade dos Silva. Pelas ruas de Santos, Lula vendia lenha, laranja, tapioca e engraxava sapatos. Dona Lindu catava grãos de café caídos nas calçadas dos armazéns da cidade para completar a renda. Outra lembrança de Lula era que eles não comiam carne nunca. "A carne que a gente comia era a mortadela que meu irmão roubava na padaria em que ele trabalhava."

A sorte começou a virar com a separação, mas foi grande mesmo no dia em que, empregado como carregador de caixas de madeira num mercado, Genival Inácio da Silva, o Vavá, achou um pacote de dinheiro embrulhado num jornal, embaixo de um carrinho.

Avisou um colega e esperou uma semana. Como ninguém reclamou o dinheiro, que correspondia a 34 salários mínimos, usou-o para quitar o aluguel atrasado em cinco meses e financiar a mudança da família para a Vila Carioca, em São Bernardo do Campo.

Só perto dos 15 anos o presidente começou a ter uma vida menos sacrificada, com um emprego numa tinturaria. Depois foi auxiliar de escritório, operário em fábrica de parafusos e começou a estudar no Senai, onde aprendeu o ofício de torneiro mecânico. Com a conclusão do curso, a vida engrenou. "Eu era o orgulho da família, o cientista", lembra. No início da década de 1960, virou metalúrgico, mas num primeiro momento pouco se interessava pela vida sindical. "Lula era completamente alienado, de direita. Mas conciliador", revela Denise.

Nessa época, vivia em companhia de Lambari e pegava um paletó emprestado de outro amigo para ir aos bailes. Em 1971, sofreu o maior tormento de sua vida: a perda da primeira mulher, Lourdes. Grávida de nove meses e com hepatite, ela faleceu num episódio que Lula acredita ter sido um erro médico. Ainda tentaram salvar o filho, sem sucesso. "Foi um baque pior que a morte da nossa mãe", diz a irmã Tiana.

"Eu fiquei três anos e meio deprimido, perdi o sentido da vida", diz Lula.

A militância sindical começou a preencher esse vazio. Graças ao sindicato, conheceu Marisa, que também era viúva. Carismático, Lula virou referência entre os operários do ABC e em 1978 derrubou os antigos aliados sindicais. "Montei minha própria diretoria." A partir daí, sua história passou a ser acompanhada pela imprensa nacional, mas ainda está longe de terminar. "A política é como uma boa cachaça: você toma a primeira dose e não tem como parar mais, só quando termina a garrafa", diz Lula, em O filho do Brasil.

Tolos preconceitos
Já que a elite nacional padece do mesmo mal com que costuma atacar o presidente Lula, o da pouca leitura, o filme realizado a partir do livro Lula, o filho do Brasil deveria ser útil para que ela reconsiderasse quatro preconceitos.

1 Lula não estudou - Na sua família, Lula foi quem mais teve estudo formal. No Brasil da década de 1960, ele pertencia à metade superior do estrato educacional. No sindicato, fez a especialização que cabia: cursos sobre leis trabalhistas e até aulas de oratória na Faculdade de Direito da USP.

2 A perda do dedo - Praga no Brasil de 40 anos atrás, os acidentes de trabalho vitimaram quatro dos cinco irmãos. O de Lula revela também a assistência precária. "Fiquei esperando horas, até chegar 6 da manhã e o dono (da metalúrgica) me levar no médico", conta. "No hospital, ele olhou meu dedo (esmagado) e cortou o resto."

3 Lula não gosta de trabalhar - Como não se aplicava ao garoto que cortava lenha no mangue e vendia amendoim na estação das barcas, esse preconceito surgiu quando ele passou a viajar o Brasil para montar o PT. Isso não era um emprego, mas não deixa de ser trabalho.

4 Lula só pensa nele - Quando metalúrgico, o salário ia para a mãe. Como pouco teve de seu pai, Lula foi um pai generoso. Hoje, o fato de nenhum dos irmãos ter dado saltos de renda mostra a correção da família, não o desamparo.
Luciano Suassuna

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8/5/2009


 
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