ISTOÉ - Independente
   
  EDIÇÃO ATUAL
  EDIÇÕES ANTERIORES
  ESPECIAIS
   
   
  CAPA
  REPORTAGENS
  CIÊNCIA & TECNOLOGIA
  BRASIL
  COMPORTAMENTO
  MEDICINA & BEM ESTAR
  MEIO AMBIENTE
  ECONOMIA E NEGÓCIOS
  CULTURA
  COLUNISTAS
   
   
  EDITORIAL
  ENTREVISTA
  A SEMANA
  GENTE
  EM CARTAZ
  OPINIÃO & IDÉIAS
  SEU BOLSO
  BASTIDORES
   
   
  FALE CONOSCO
  EXPEDIENTE
  ANUNCIE
  ASSINE ISTOÉ
  LOJA 3
   
   
 



Brasil  
Imprimir
 
Racha no Itamaraty
A polêmica visita do presidente do Irã e o apoio a egípcio para chefiar a Unesco mostra a divisão da diplomacia brasileira

Claudio Dantas Sequeira

A gestão do ministro Celso Amorim à frente do Itamaraty ganhou o respeito da comunidade internacional. Combinando habilidade de negociação com certa ousadia diplomática, o chanceler conseguiu projetar a imagem do Brasil como interlocutor em importantes fóruns, como é o caso das Nações Unidas e do G-20. Até então, apenas tinham vez os pesospesados do tabuleiro geopolítico mundial. No entanto, apesar desses avanços, os setores mais à esquerda da diplomacia brasileira têm levado Amorim a um terreno minado.

É o que revela a recente decisão de apoiar um obscuro candidato do Egito para chefiar a Unesco - abrindo mão da candidatura brasileira - e o polêmico episódio em torno da visita do presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad. Classificada pelo embaixador Roberto Abdenur de "extemporânea e equivocada", a iniciativa de estender o tapete vermelho a Ahmadinejad abriu um racha na comunidade diplomática e no próprio Ministério das Relações Exteriores. De um lado, a corrente xiita, que transita sem embaraço na cúpula da diplomacia brasileira, acena para a Coreia do Norte e se cala ante as violações de direitos humanos no Sudão. De outro lado, diplomatas afeitos à tradicional escola do Barão do Rio Branco lembram que o Brasil participou da fundação do Estado de Israel e acham que interesses comerciais não podem se sobrepor a princípios históricos.

"O Brasil precisa de uma estratégia para se aproximar e fortalecer relações com o mundo árabe"

Celso Amorim, ministro das Relações Exteriores

A visita de Ahmadinejad obedecia à orientação do assessor internacional da presidência, Marco Aurélio Garcia, e do secretário-geral do Itamaraty, Samuel Pinheiro Guimarães. Ambos pressionavam pelo encontro havia pelo menos dois anos. Mas o momento não poderia ser pior. O próprio subsecretário de assuntos políticos Roberto Jaguaribe achou a visita precipitada. Muitos diplomatas da ala mais tradicional bombardearam a ideia. As críticas assumiram tom formal com a convocação do embaixador brasileiro em Tel-Aviv, Pedro Motta, à chancelaria israelense e protestos ganharam as ruas com manifestações no Rio de Janeiro e em São Paulo. Diante da resistência.

Ahmadinejad foi aconselhado por assessores a abortar a viagem. Mas o Itamaraty só foi informado em cima da hora. O menu já estava contratado, as reservas feitas, os carros alugados e a segurança a postos. A justificativa oficial, de preocupação com as eleições no Irã, não convenceu. O governo Lula ficou irritado, mas diplomatas experientes avaliaram que o cancelamento da visita caiu do céu. "Não tínhamos nada a ganhar com essa visita.

Antes de convidar Ahmadinejad, temos que pressioná-lo para que o Irã se mova no sentido de uma inserção internacional mais cordata e transparente", diz Abdenur, surpreso com o fato de o convite ter sido "um ato voluntário do ministro Amorim". O chanceler, porém, defendeu a visita. "Temos interesse em cooperação com o Irã porque não dialogamos apenas com países com os quais estamos de acordo."

"O Brasil nunca dirigiu uma organização da ONU e agora abdica dessa oportunidade. Estou frustrado"

Marcio Barbosa, diretor geral adjunto da Unesco

Há rumores de que Amorim precipitou a visita de Ahmadinejad num esforço diplomático para fortalecer sua candidatura à Secretaria Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea), mas o ministro nega. Com o mesmo objetivo, o chanceler teria decidido apoiar o egípcio Farouk Hosni, conhecido por suas posições antissemitas, para a direção geral da Unesco. Amorim preteriu o brasileiro Marcio Barbosa, diretoradjunto do organismo e favorito para o cargo, e o senador Cristovam Buarque (PDT-DF). "O Brasil precisa de uma estratégia para se aproximar e fortalecer relações com o mundo árabe", disse Amorim, em reunião no seu gabinete. "O Brasil nunca dirigiu uma organização da ONU e agora abdica dessa oportunidade. Estou frustrado com a decisão do Itamaraty", reagiu Barbosa. Para o ex-chanceler Celso Lafer, "é um desrespeito ao histórico de serviços prestados por brasileiros em organismos internacionais, como Sérgio Vieira de Mello e Rubens Ricupero."

EM CIMA DA HORA Ahmadinejad abortou sua visita ao Brasil, mas o Itamaraty foi o último a saber

Lafer também adverte que "se a visita de Ahmadinejad tivesse se materializado geraria uma importação de ódios do Oriente Médio." Ele explica que um dos princípios que regem a política internacional brasileira é o da prevalência dos direitos humanos. A posição do presidente do Irã, na conferência antirracismo em Genebra - quando pregou o fim de Israel e negou o Holocausto -, representou um descumprimento dessa linha.

Lafer ressalta que a visita poderia ser interpretada como apoio de Lula à reeleição de Ahmadinejad, um contrassenso, considerando que o Irã está submetido a sanções do Conselho de Segurança da ONU. Nos meios diplomáticos, comenta-se que a possibilidade de uma visita de Lula a Israel deixou de ser vista com bons olhos pelas autoridades de Tel-A viv. Esse é um dos preços do racha ideológico no Itamaraty. Espera-se que o Brasil retome sua tradição de equilíbrio. Foi assim que o País se fez respeitar nos foros internacionais.

 

 

8/5/2009


 
Receba as informações de Isto É semanalmente em seu e-mail:
 
 
 
 
 
 




 
 
 
 
 
   
 
Imprimir

   
   
   

© Copyright 1996-2008 Editora Três
É proibida a reprodução total ou parcial deste website, em qualquer meio de comunicação, sem prévia autorização.

ContentStuff - Media Solutions