 |
SUCESSO
Retrospectiva do artista foi vista por mais de 40 mil pessoas no Rio de Janeiro |
O paulista Vik Muniz, 47 anos, é um dos artistas brasileiros mais famosos no Exterior. Estabelecido em Nova York há mais de duas décadas, ele consegue vender obras por US$ 40 mil e tem trabalhos expostos nos principais museus do mundo.Em dezembro, o MoMa - Museu de Arte Moderna de Nova York o convidou para fazer a curadoria de uma exposição, um luxo reservado a poucos. Foi um sucesso. Mas o que está deixando Muniz de riso aberto é a repercussão de sua retrospectiva no Brasil.
No Rio de Janeiro, ela foi vista por mais de 40 mil pessoas, um público equivalente ao de um show de rock.
Agora em cartaz no Masp, Museu de Arte de São Paulo, a mostra formada por imagens feitas de geleia, açúcar, linhas, diamantes, caviar e até de objetos achados no lixo promete virar mania. Na entrevista a seguir, o artista explica por que cansou de ser conhecido apenas no mundinho das artes plásticas: "Meu público é feito também de crianças e vovós. Faço arte para todo mundo."
ISTOÉ - Megamostras como a Bienal de São Paulo, que corre o risco de não acontecer no ano que vem, ainda fazem sentido?
Vik Muniz - Eu nunca acreditei muito nessas megamostras, acho que elas precisam ter um desenho diferente.
Quando expus em Veneza, alguém me perguntou se eu não estava contente por ter meu trabalho visto por 30 mil pessoas. Eu disse que estaria mais contente se elas não estivessem vendo 30 mil outros artistas.
ISTOÉ - O sr. não acha que hoje os artistas têm uma visibilidade maior?
Muniz - Somos ainda muito poucos. Rivane Neuenschwander, Ernesto Neto, Beatriz Milhazes, nós somos todos amigos, temos o celular um do outro. É ridículo. Uma bienal acontece de dois em dois anos para atualizar o público com uma mostra que abrange a produção de um país. O interesse dela é a contemporaneidade, não o tamanho. Cada vez mais a representação nacional foi sendo esmagada, ficou menor e menos importante. Isso tem que ser completamente mudado.
ISTOÉ - A Bienal ainda projeta a arte brasileira internacionalmente?
Muniz - Mas qual arte brasileira? Hélio Oiticica e Lygia Clark? Todo mundo os conhece. Arte brasileira não é só Hélio e Lygia, que são excelentes artistas. E os jovens? São centenas, milhares de pessoas que vivem esse sonho de expor numa galeria no Exterior e dependem desse público que vem de dois em dois anos para ver a Bienal.
É quando os jovens têm uma chance de mostrar sua obra. Mesmo que só a vejam e não a comprem.
ISTOÉ - No Rio de Janeiro, sua exposicao foi vista por mais de 40 mil pessoas. Qual é o gosto da popularidade?
Muniz - Um taxista que me levava para o aeroporto Antônio Carlos Jobim me recomendou a mostra. Disse que tinha uma exposição em cartaz que eu não podia perder. Eu falei que era minha e ele disse que eu estava de sacanagem. Isso para mim é mais importante que o sucesso de crítica.
ISTOÉ - A opinião do taxista vale mais que uma resenha positiva?
Muniz - As duas opiniões são importantes. Mas estou cansado desse meu público, de fazer uma exposição de sucesso com uma crítica boa no The New York Times e ter 1.500 visitantes ao final. Não é nem pelo número de pessoas. É pelo perfil de quem vai ver.
ISTOÉ - Que público o sr. almeja?
Muniz - Meu público hoje é feito de crianças, vovós, do guarda do museu, do manobrista. Faço arte para todo mundo. Quero ser visto pela família inteira e também pela empregada. Criança, então, é o crítico mais difícil. Se ela não gosta, logo diz: isso é uma porcaria. No Rio tinha um mar de crianças e elas estavam adorando.
ISTOÉ - Essa posição não é comum na arte contemporânea.
Muniz - O artista tem sempre essa coisa paranoica de pensar que ninguém o entende. Na verdade, isso é uma lorota. Quando ele escuta de uma pessoa comum que o trabalho dele o fez ver as coisas de modo diferente, é o melhor dia da vida dele.
ISTOÉ - O sr. fez um retrato do presidente Lula só com confetes de páginas de revistas. Como se aproximou dele?
Muniz - Foi em Ribeirão Preto, na inauguração de uma usina. Como ele estava no cerimonial, consegui 15 minutos e o fotografei. Ele perguntou para o que era e eu falei que era artista plástico. Ele não me conhecia.
ISTOÉ - O sr. mandou o trabalho para ele?
Muniz - Não, ele não pediu.
 |
"Fiz o retrato do Lula na inauguração de uma usina. Ele não me conhecia e perguntou para o que era. Não mandei um de presente porque ele não me pediu" |
ISTOÉ - O sr. esperava esse sucesso no Brasil?
Muniz - Não esperava, mas sonhava com ele. A primeira vez que meus pais foram a um museu foi para ver um trabalho meu. E pela expressão deles, via como estavam aterrorizados.
Exposições de arte contemporânea são um ambiente um tanto opressivo, lidam com códigos e linguagens aos quais as pessoas não têm acesso. É uma coisa sinistra. Se você vai visitar uma galeria em Nova York, tem sempre um cara sentado numa cadeira alta, olhando para você com uma cara pernóstica. Eu fico pensando quanto esse sistema de galerias prejudica o artista.
ISTOÉ - Por quê?
Muniz - A galeria está ali para vender, mas o artista tem sede de comunicação. Ele quer se comunicar com o homem comum, que não é burro.
Você deve ao público uma arte que é ao mesmo tempo inteligente e acessível. Os Simpsons, por exemplo, é apreciado por um Ph.D. da Universidade de Harvard e por uma criança de três anos. Esse é o grande desafio da arte contemporânea no século XXI.
ISTOÉ - Por que as galerias estão sempre vazias?
Muniz - As pessoas não entram e acho isso um erro. Não é só a galeria que inibe. A crítica também intimida porque ela tem uma terminologia erudita. Do outro lado, os museus estão voltados para a educação e não para a percepção.
É uma admiração pelos mestres, parece que você tem de ajoelhar diante de certos quadros porque foram feitos por determinados artistas. O uso que faço da história da arte em meus trabalhos é uma forma de banalizar isso. Coloco um Rafael ao lado de um Bosch.
PÁGINAS :: 1 | 2 | Próxima >>