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Editorial  
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O rio e o muro

Décadas de descaso urbanístico e de um conceito de política populista que estimulou a expansão de favelas nos anos 80 e 90 levaram à ocupação ilegal, desordenada e a um caos social na decantada Cidade Maravilhosa. O Instituto Pereira Passos (IPP), que se dedica ao estudo da evolução metropolitana do Rio de Janeiro, acaba de cravar uma marca assombrosa: no seu cadastro estão contabilizadas 968 "comunidades", eufemismo para as favelas que tomaram os morros cariocas. Pela topografia especial e privilegiada do Rio, esses morros estão por, praticamente, todos os lados. Cada bairro tem o seu e com ele a "comunidade". As quase mil favelas já mudaram por completo o cenário da cidade e ampliaram o espectro de violência local. Em 2008, pelo menos 50 novas manchas em imagens de satélite foram identificadas como novas ocupações. Agora, pela primeira vez em anos, o problema passa a ser enfrentado com uma iniciativa que, se não resolve por completo a situação, ao menos representa um passo na direção correta. O muro, o projeto de autoridades estaduais de cercar numa primeira leva 11 favelas, começa a virar realidade. O muro estanca, de saída, o impacto ambiental que vinha ocorrendo por conta do avanço descontrolado de barracos sobre matas e florestas nativas. O muro pavimenta o terreno para que uma política habitacional séria - com planejamento de moradias dignas e infraestrutura adequada - ganhe fôlego. O muro organiza a comunidade e abre espaço para que o princípio da civilidade prevaleça. Não é novidade para ninguém que as quadrilhas de tráfico dominaram esses morros.

Combates rotineiros de facções rivais ganharam as ruas e toda sorte de desordem urbana veio na esteira do processo de favelização: carros estacionados irregularmente, flanelinhas praticando livre extorsão, camelôs obstruindo calçadas. Por conta e culpa de gestões negligentes do passado, instalou-se um verdadeiro mafuá da marginalidade no Rio. E essa tomada de espaço às margens da lei vicejou em crescente desrespeito aos cidadãos que pagam impostos e cumprem com seus deveres. Críticas demagógicas e sempre com o intuito oportunista de lucrar com a bagunça foram lançadas por opositores da ideia. Não há nada de apartheid ou de movimento sectário, de separação de classes sociais, no plano dos muros. O direito de ir-evir de moradores está declaradamente garantido pelos projetistas e, daqui por diante, com chances de maior segurança. O passo seguinte, da remoção dessas favelas, também deve ser discutido sem tabus. De uma maneira ou de outra, o Rio está iniciando uma revolução que pode no futuro virar modelo para todo o País e, quem sabe assim, fará por merecer ainda mais a sua eterna marca de cidade maravilhosa.

Carlos José Marques, diretor editorial

 

17/4/2009


 
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