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Livros
Memórias da guerra
Através de cartas, romance conta como um clube literário salvou perseguidos pelo nazismo

Eliane Lobato

GUERNSEY No coração do Canal da Mancha, a ilha resistiu à ocupação alemã

Caro Sidney, querida Juliet, prezada senhorita, caríssimo senhor. Da primeira à última página, o livro A sociedade literária e a torta de casca de batata (Rocco, 304 págs., R$ 38) é uma troca de cartas entre amigos que vão costurando relatos sobre o nascimento e fortalecimento de laços de amizade e a ocupação de uma ilha inglesa pela Alemanha na década de 1940.

A obra ficou mais de 20 semanas na lista dos mais vendidos do The New York Times, mas sua autora, Mary Ann Shaffer, que estreou como escritora aos 70 anos, morreu sem conhecer o sucesso de seu romance epistolar. A sobrinha que a ajudou a escrever, Annie Barrows colhe os louros e não se cansa de publicamente homenagear a tia.

A tal sociedade literária que dá nome à obra foi criada sem querer por moradores de Guernsey, no Canal da Mancha, quando eles foram flagrados na rua após o toque de recolher - um grave crime. Justificaram a transgressão dizendo que estavam em uma reunião sobre livros e, ato contínuo, tiveram mesmo de criar o clube para que os soldados alemães não os pu nissem.

GLÓRIA PÓSTUMA Annie Barrows e sua tia, Mary Ann Shaffer

Dessa forma alquebrada, muitos deles tiveram o primeiro contato com livros e acabaram encontrando em suas páginas forças para sobreviver aos horrores da ocupação. Torta de casca de batata é realmente isso, uma torta de casca de batata que serviam nas reuniões. A felicidade vinha em forma de notícias simplórias: "Lorde Woolton disse que você não precisa mais ser bombardeado para comprar lençóis novos!", escreve Juliet, a jornalista que conduz a trama.

O senhor Ramsey argumenta que poderia ter suportado melhor a dor quando os alemães bombardearam seus caminhões de tomates se já tivesse lido William Shakespeare. "O belo dia terminou e a escuridão nos aguarda" é a frase do dramaturgo que poderia tê-lo consolado adequadamente. Mary Ann mostra que não dá para desinventar a guerra, mas é possível reinventar a sua maneira de falar dela.

 

 

 

8/4/2009


 
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