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Ciência & Tecnologia  
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O monstro dos mares
Cientistas reconstroem, pela primeira vez, fóssil de um dos mais terríveis predadores que viveram há 500 milhões de anos

Tatiana de Mello

O desenvolvimento das espécies no Período Cambriano sempre foi um apaixonante mistério para os cientistas. Em aproximadamente 40 milhões de anos – quase nada, em termos de evolução – animais e plantas passaram de microorganismos simples, unicelulares, para organismos muito maiores e complexos. Ninguém sabe ao certo como aconteceu uma escalada tão rápida. Esse mistério, ou pelo menos uma ponta dele, começou a ser desfeito na semana passada. Pesquisadores da Universidade de Uppsala, na Suécia, anunciaram na revista Science a conclusão de um exaustivo processo de reconstituição do fóssil clas sificado como “tiranossauro do Período Cambriano”. Trata-se do Hurdia Victoria, espécie de camarão gigante que aterrorizou esponjas marinhas e outros animais primitivos há pelo menos 500 milhões de anos.

Todo esse trabalho de reconstrução, que ajuda a entender uma época tão remota, volta-se a 1912, quando pela primeira vez foi encontrada uma parte fossilizada desse tipo de camarão. Ao longo de quase um século, diversos pedaços de Hurdia foram localizados no sítio arqueológico de Burgess Shale, no Canadá, região tombada pela Unesco como patrimônio histórico. Não havia, no entanto, uma classificação precisa e, assim, os vestígios acabaram catalogados como medusas, esponjas ou pepinos-do-mar. Tudo errado. Só agora “a coisa” ganhou forma e nome e a biologia marinha se enriqueceu. Ele media 40 centímetros de comprimento (um gigante para os padrões do Período Cambriano no que diz respeito à fauna do mar) e seu poder predatório era infernal.

O Hurdia possuía poderosa mandíbula com dezenas de dentes e um par de garras para ajudá-lo em caçadas. Ele ocupava o topo da cadeia alimentar e “era capaz de devorar tudo que se movimentasse”. O seu corpo cobria-se de guelras que lhe garantiam oxigênio extra na pesada rotina de um predador. Os olhos ficavam sobre um pedúnculo, como nos siris. Ou seja: ele já era bastante desenvolvido biologicamente. Uma particularidade ainda não explicada é por qual motivo, no caminhar das espécies, o Hurdia tinha sobre a cabeça uma enorme carapuça oca. Qual a sua utilidade? Isso ainda não foi descoberto. “Em muitos animais, uma concha ou carapaça é usada para proteger partes moles do corpo. Vê-se isso nos caranguejos atuais. Mas essa estrutura no Hurdia é vazia e não protege nada”, diz a cientista Allison Daley, uma das responsáveis pela montagem do “tiranossauro do mar”. Não há nenhum animal catalogado com estrutura semelhante e tal fato significa que não existem descendentes diretos desse crustáceo predador. Sabe-se apenas que ele tinha, digamos assim, um primo maior, chamado Anomalocaris, e essas duas espécies são responsáveis pela origem de baratas, aranhas e outros artrópodes que hoje nos incomodam.

 

FOTOS: MARIANNE COLLINS (ILUSTRAÇÃO); DIVULGAÇÃO

 

1/4/2009


 
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