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Entrevista  
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"Os bancos poderiam contribuir mais"
Ministro do Desenvolvimento quer menos conservadorismo das instituições financeiras

por Octávio Costa

OTIMISMO
Miguel Jorge aposta em crescimento do PIB brasileiro de 2% este ano

O ministro do Desenvolvimento, Miguel Jorge, é homem de sete instrumentos. Jornalista, trocou a imprensa pela indústria automobilística e chegou a vice-presidente da Autolatina e da Volkswagen. Em 2001, mudou-se para o mercado financeiro e ocupou uma vice-presidência do Banco Santander Banespa. Com essa vivência múltipla, analisa o momento da economia.

Nesta entrevista à ISTOÉ, deu logo uma boa notícia: a redução do IPI sobre veículos até duas mil cilindradas será prorrogada em abril. Com a experiência de executivo financeiro, fez uma crítica fundamentada aos bancos comerciais. Apesar das medidas oficiais, o fluxo de crédito demorou a se restabelecer no País, devido ao excesso de conservadorismo do sistema bancário. "Nossos bancos ficaram ainda mais conservadores, mas poderiam contribuir mais no enfrentamento da crise", disse.

ISTOÉ - Como será o primeiro trimestre?
Miguel Jorge -
Será um pouco melhor do que a tragédia do trimestre passado. A percepção da crise só ficou mais clara em novembro e aí houve uma parada muito forte em dezembro, quando tradicionalmente se aumenta o nível de produção para desová-la no final de dezembro, em janeiro e fevereiro. Janeiro foi muito ruim, mas fevereiro já melhorou um pouco e, para março, as indicações são de recuperação em vários setores da economia. As commodities começam a se recuperar, por causa da safra. E a indústria automobilística, neste mês, espera produzir 250 mil veículos, o que é praticamente a produção de março do ano passado.

O impacto de medidas a favor da indústria automobilística sobre o conjunto da economia é muito forte.

ISTOÉ - E o varejo como vai?
Miguel Jorge -
As vendas vão bem,principalmente no segmento de alimentos e vestuário, entre outros.

A linha branca deve crescer pouco, mas crescerá. Vai crescer sobre o ano passado, quando o crescimento foi substancial. As tevês de plasma e LCD também têm mostrado números extraordinários, com 100% de aumento. Sobre uma base menor, mas a reação é sintomática.

ISTOÉ - A redução do IPI dos carros será prorrogada?
Miguel Jorge -
Falei contra a prorrogação do IPI e todo mundo ficou perplexo, mas estava agindo assim a favor da indústria. Diante da notícia da prorrogação, os consumidores na mesma hora iriam adiar a compra. Realmente as vendas caem.

No dia em que saíram as notícias sobre a prorrogação, recebi vários telefonemas em que o fluxo de pessoas nas revendas já tinha diminuído. Mas deve ser prorrogado. Em fevereiro, com menos dois dias úteis do que no ano passado, produzimos praticamente a mesma coisa que em fevereiro de 2008. Em março, vamos produzir a mesma coisa que em março de 2008. Isso é efeito da redução do IPI.

"Em março, vamos produzir a mesma coisa que em março de 2008. Isso é efeito da redução do IPI"

ISTOÉ - O governo não soube avaliar a real dimensão da crise?
Miguel Jorge -
No último trimestre, nossa preocupação primordial foi com o fluxo de crédito para os ex portadores. Além disso, foram tomadas medidas que demoraram para chegar à ponta, como a liberação de compulsório bancário. Mas não se imaginou que não teriam efeito imediato. Muitas delas não chegaram à ponta pelas dificuldades apresentadas pelo próprio sistema financeiro, que ficou mais rígido e mais seletivo na concessão de empréstimos. O sistema financeiro brasileiro gira em torno de um paradoxo. Ele é conservador, mas o fato de ser conservador é que permitiu que fosse mais sólido do que o sistema dos Estados Unidos e dos países europeus. Digamos que o nosso sistema é ortodoxo e o deles é heterodoxo. Isso nos cria dificuldade. Quando há uma situação de crise, ele fica ainda mais conservador. Não avaliamos isso de maneira correta.

ISTOÉ - Com a redução da Selic, é possível os bancos sairem da retranca?
Miguel Jorge -
O grande problema é que a redução da Selic não tem o impacto que se imagina. Até porque a Selic não é o único vetor que se toma para se estabelecer os custos financeiros. A inadimplência numa situação como essa aumenta. Até mesmo os bancos oficiais aumentaram muito as provisões para inadimplência. E estão agindo de maneira correta. Mesmo assim, nossos bancos poderiam contribuir mais no enfrentamento da crise.

ISTOÉ - Qual é a contribuição do BNDES nesse processo?
Miguel Jorge -
Durante muito tempo, o BNDES teve participação menos importante na economia porque havia crédito muito farto e fácil no mundo todo. Mas hoje a gente sabe por que o dinheiro estava sobrando. Houve uma mudança importante: o BNDES ficou muito mais pró-ativo. Partimos para as empresas e aumentamos as linhas de financiamento para máquinas e equipamentos. Ao não encontrarem mais os financiamentos de longo prazo no mercado internacional, as empresas se voltaram para o BNDES.

ISTOÉ - O repasse de R$ 100 bilhões do Tesouro Nacional será suficiente?
Miguel Jorge -
Ajuda muito. Mas não resolve porque, no ano passado, os desembolsos do BNDES chegaram a R$ 90 bilhões. Vamos precisar de muito mais do que R$ 100 bilhões. A entrada de projetos no BNDES diminuiu, mas há muitos investimentos em curso que precisam ser mantidos. Não podemos perdê-los de maneira nenhuma. Assim, se tivermos neste ano R$ 150 bilhões, vamos aplicá-los, sem dúvida. Temos um projeto importante de inovação tecnológica no BNDES. Estamos trocando toda a plataforma tecnológica do BNDES, para preparar o banco para o futuro.

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25/3/2009


 
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