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Entrevista  
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CÁSSIA KISS
"Ser mãe é uma grande meleca"
A atriz diz que a maternidade é complicada, revela seus traumas e conta que gosta de papéis de vilã porque a maldade não tem ética

por Fernanda Assef e Natália Rangel

Cásia hoje: "Remédios me tornam mais sociável, faço feliz as pessoas que me cercam"

A atriz Cássia Kiss comemora três décadas de carreira interpretando no palco uma personagem que, transposta à vida real, tem muito a ver com a sua própria história - dramas, dores, dúvidas e inquietação emocional. Mais ainda: a personagem é uma mulher autoritária. Vai-se além: a personagem é mãe. Cássia, 51 anos, admite que está revivendo considerável porção de sua infância e juventude, e nada melhor do que isso para festejar não apenas a bem-sucedida carreira, mas, também, a guinada que deu em sua vida pessoal - e nessa mudança está incluído o seu próprio papel de mãe, a maneira geral de olhar a vida e a sua convivência com a instabilidade do humor. Após uma breve interrupção durante os feriados do Carnaval, Cássia reestreia na sexta-feira 13, em São Paulo, a peça Zoológico de vidro, um dos clássicos do dramaturgo americano Tennessee Williams.

ISTOÉ - Há sete anos a sra. não pisa um palco e há quase duas décadas não atua em São Paulo. Como está sendo o retorno?

Cássia Kiss - São Paulo está em ascensão, ao contrário do Rio de Janeiro, onde eu moro há quase 30 anos. O Rio de Janeiro está na mais profunda decadência. É uma diferença estonteante.

ISTOÉ - Como se sente na condição de recém-casada aos 51 anos?

Cássia - Estou casada há quatro meses e esta é a primeira vez na minha vida que eu uso aliança. Encontrei luz no fim do túnel. Essa é a imagem que faço da minha atual relação.

ISTOÉ - A sra. é mãe de quatro filhos. Como lida com a maternidade?

Cássia - Eu acho que ter tido filhos mais madura me ajudou. Atualmente, estou mais tranquila, observo mais. Eu vejo que eles são pessoas bem diferentes entre si e precisam muito da minha presença e da minha palavra. Por um bom tempo eu achei que eles mereciam palmadas. Hoje tenho certeza de que não merecem. Não é com pancada que se educa.

ISTOÉ - A sra. pensava diferente?

Cássia - Enfiei a mão na bunda do Joaquim e da Maria Cândida (os mais velhos, hoje com 13 e 11 anos, respectivamente). A palmada é o pior castigo. Agora sou uma mulher de 2009 e quero estar voltada para o futuro e nunca para o passado. Bater em criança é coisa do passado.

ISTOÉ - É rigorosa na educação?

Cássia - Sou firme. Mas não tenho sonho para os meus filhos, não planejo nada para eles. Nada. Não tenho expectativas. E cometo erros. Quer ver um supererro que eu cometi? Em 2008 coloquei minha filha numa escola que ela não queria. Resultado: foi reprovada. Aprendi a lição. Ela está voltando para a escola antiga, superfeliz.

"Quando eu e o Antonio Fagundes atuamos juntos, uma cena nunca parou porque ele esqueceu o texto. Era eu quem esquecia. Ele dizia: 'Estude o seu texto"

ISTOÉ - A sra. ainda é vegetariana?

Cássia - Sim. Eu não tenho carne em casa, deixei de comer carne já na adolescência. Eu fui muito radical.

ISTOÉ - Por quê?

Cássia - Fiz experiências louquíssimas: dez dias de jejum absoluto. Cinquenta dias comendo só arroz integral. Durante muitos anos, eu passava um dia por semana em jejum. Eu fui kikuchiana (referência ao japonês Tomio Kikuchi, que propõe uma alimentação macrobiótica). Eu trouxe uma cozinheira de um restaurante do Kikuchi de Belo Horizonte e ela cozinha para minha família até hoje.

ISTOÉ - Foi uma busca espiritual ou necessidade estética?

Cássia - Eu não tenho muitas buscas espirituais, prefiro um caminho mais simples. Comecei a comer arroz integral depois de experimentá-lo na casa de um amigo. A decisão não teve nada a ver com espiritualidade. Teve a ver com meu intestino mesmo, que passou a funcionar. Não deixei de comer carne porque tenho pena da vaquinha.

ISTOÉ - Como foi revelar que sofria de bulimia e de transtorno bipolar?

Cássia - Foi interessante perceber que é comum encontrar gente com algum tipo de transtorno. Às vezes, conheço alguém e penso: essa pessoa precisa de ajuda. Falar publicamente da minha bulimia e da minha bipolaridade foi o caminho que encontrei para também auxiliar outros indivíduos. É imenso o número de gente que me procura, que quer saber o nome do meu psiquiatra. Gente que está sofrendo ou tem problemas com marido ou filhos.

ISTOÉ - A sra. brigou muito com a psiquiatria?

Cássia - Não, mas demorei para achar um profissional do qual eu gostasse. Eu me lembro de ter ido a uma consulta com um psicanalista e de ter ficado ali na frente dele por uns 15 minutos. Ele não falou nada. Daí eu me levantei e fui embora irritada. Que diabo de psicanalista é esse que não fala coisa nenhuma? Mas hoje tenho um psiquiatra e um psicanalista. Eu preciso muito deles.

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6/3/2009


 
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