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Os eleitos pela genética
A aplicação de testes em embriões humanos faz nascer uma geração de bebês que poderá crescer livre da ameaça de alguns tipos de câncer e de outras doenças

Mônica Tarantino e Renata Cabral

Foto: Firefly Productions/cordis/Latinstock

Você gostaria de evitar que o seu filho perdesse os cabelos antes dos 40, como aconteceu a você, ao seu pai e ao seu avô? Sonha em ter uma filha que possa vir ao mundo livre de uma doença hereditária que atinge os membros da família? De um extremo ao outro, a ciência está ao seu lado. Como resultado do grande esforço mundial para desvendar as dezenas de milhares de variações do código genético humano, começam a surgir novos métodos de diagnóstico destinados a identificar, o mais cedo possível, as alterações associadas a várias doenças.

São exames capazes de revelar erros na programação genética que levarão a males como a hemofilia e também a alguns tipos de câncer. Até hoje, contudo, qualquer mudança na sequência do nosso DNA dependia praticamente do acaso, a lenta adaptação da espécie, batizada de seleção natural. Nos últimos meses, entretanto, uma série de casos médicos mostrou que foi dado um passo adiante – a partir de agora, o uso da tecnologia em embriões nos laboratórios, antes mesmo de a gravidez começar, está inaugurando o que se pode chamar de seleção artificial. Foi aberta a porta para se evitar doenças hereditárias, mas também para que os pais possam escolher, por exemplo, o sexo do bebê. Como toda revolução, essa promete incontáveis benefícios – e muitos questionamentos éticos.

ÊXITO Javier, no colo da mãe, Soledad, foi selecionado para ser compatível com o irmão, que precisa de transplante

Até agora, o caso de maior repercussão mundial se deu na sexta-feira 9, com o anúncio do nascimento da primeira menina inglesa selecionada geneticamente para não ter o gene BRCA1, responsável por 10% dos cânceres de mama e também tumores malignos de ovário. Ela foi concebida artificialmente, com técnicas de fertilização in vitro (o óvulo é fecundado pelo espermatozóide no laboratório), para que os embriões pudessem ser avaliados. “Só os sem a mutação foram considerados aptos para serem transferidos para o útero”, disse o pesquisador inglês Paul Serhal, que liderou o trabalho. O processo de seleção artificial livrou a criança da sentença do câncer de mama atado a esse gene. Agora, a menina terá as mesmas chances de qualquer mulher de manifestar a doença. Caso contrário, o risco seria de 80%. A mãe, de 27 anos, decidiu se submeter à reprodução assistida e à seleção do embrião porque a irmã, uma prima, a avó e a mãe dela tiveram esse tumor.

Outro caso bem-sucedido de seleção de embriões aconteceu na Espanha. Há quatro meses, o casal Soledad Puertas e Andrés Mariscal optou pela fertilização in vitro para gerar um bebê com características compatíveis com o outro filho, Andrés, de seis anos, que sofre de beta talassemia. A doença consiste em uma impossibilidade do organismo de fabricar hemoglobina, o pigmento que dá a cor aos glóbulos vermelhos do sangue. Por isso, o menino precisava de transfusões regulares e também de um transplante de medula, para consertar a sua fábrica de hemoglobina. Na maioria dos casos, o doador costuma ser encontrado em bancos de medula ou de cordão umbilical. Outra tentativa dos casais era engravidar naturalmente para, em uma espécie de loteria, tentar um bebê apto a ser doador. Walter Pinto, professor-titular de genética médica da Universidade Estadual de Campinas, por exemplo, atendeu uma moça que engravidou seis vezes até ter um filho compatível com o irmão. “Com a possibilidade de selecionar o embrião, isso não precisa acontecer mais”, diz Pinto.

Comparando o DNA a uma enciclopédia, os cromossomos são os fascículos desta enciclopédia. E os genes são os capítulos de cada fascículo. Assim, para se ter uma ideia do desenvolvimento da ciência, os novos testes genéticos podem detectar alterações cromossômicas, como a síndrome de Down, mas também apontam modificações em um único gene, como a que causa a distrofia muscular de duchene, responsável por um comprometimento dos músculos da pessoa. Antes de serem feitos em embriões, esses exames já eram oferecidos para casais com histórico familiar de doenças genéticas. “Mais de 300 alterações podem ser diagnosticadas”, diz o geneticista Thomaz Gollop, da Universidade de São Paulo. Os mesmos testes podem ser feitos no início da gravidez. Nestes casos, a notícia de uma anomalia no feto costuma levar o casal a dilemas éticos e religiosos sobre o que fazer, mesmo em países onde o aborto é permitido. A evolução da genômica e a possibilidade de avaliar embriões – ainda que isso implique a necessidade de recorrer aos métodos de reprodução assistida – permitem evitar parte desses conflitos sociais e psicológicos.

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16/1/2009


 
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