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Medicina & Bem-estar  
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Os fantásticos passageiros da sinestesia
Pouquíssimas pessoas conseguem enxergar cores nas palavras ou sentir aromas nos sons. Alguns são brasileiros, e a ciência apenas começa a entender essas mentes diferentes

Cilene Pereira

Porém, pairam indagações sobre suas causas, embora exista uma teoria preponderante. Ela seria resultado de uma superestimulada rede de conexões neuronais. Normalmente, os circuitos formados pelos neurônios para o processamento de uma informação percorrem um determinado caminho, em uma determinada área do cérebro. Na sinestesia ocorreria uma interconexão desses trajetos, fazendo com que as informações trafegassem em áreas distintas, originando a sobreposição de sensações. Haveria uma outra arquitetura cerebral.

A confirmar essa hipótese existem estudos mostrando que, de fato, o cérebro dos sinestetas funciona de maneira distinta. Um deles foi realizado na Universidade de Waterloo, no Canadá, e comparou a reação cerebral de portadores de sinestesia com nãoportadores. Quando os pesquisadores colocavam números na frente dos dois grupos, os sinestetas acionavam também a parte do cérebro responsável pelo reconhecimento de cores. Nos indivíduos sem a característica, apenas a da visão era ativada.

Recentemente, no entanto, um trabalho colocou dúvida na questão. O pesquisador Roi Cohen Kadosh, do Instituto de Neurociência Cognitiva da Universidade College London, em Londres, na Inglaterra, descobriu que a sinestesia - pelo menos a que leva o indivíduo a enxergar cores nas palavras - pode ser induzida por meio da hipnose. "Sob esse estado mental, os voluntários reportaram experiências similares às descritas pelos sinestetas", contou o cientista à ISTOÉ. Em outras palavras, o trabalho do pesquisador inglês mostrou que, mesmo pessoas sem as tais superconexões neuronais seriam capazes de ter experiências sinestésicas.

Há alguns testes que indicam um sinesteta com razoável eficiência. Um dos mais respeitados foi formulado por David Eagleman, do Departamento de Neurociência da Escola de Medicina Baylor, nos Estados Unidos. "O exame detecta vários tipos", informou o pesquisador à ISTOÉ. Os testes se baseiam na premissa de que o sinesteta de verdade não erra nunca as associações que faz. Isso quer dizer que, quando o gosto de uma nota musical é de chocolate, será sempre assim. Ele pode responder a isso uma vez e, cinco anos depois, repetirá a resposta.

A característica não costuma ter impacto no cotidiano - embora isso possa parecer estranho aos olhos de quem não sente o cheiro de nada quando lê um livro, por exemplo. A sobreposição de sensações é tão natural para um sinesteta quanto é para a maioria das pessoas saber que uma palavra tem um determinado número de letras. Está implícito. Hugo Ramos, o sinesteta cearense, resume bem a condição: "Simplesmente sinto as cores nas palavras e sons. Da mesma forma como sinto a textura de um tecido. Faz parte da minha vida."

É fato, porém, que a condição produz situações inusitadas. Ramos, por exemplo, detestava tirar dez na escola. "Nove é marrom com preto. Dez é dourado. A gente enche mais a boca falando uma palavra escura do que uma clara. Por isso, na época do colégio, achava mais bonito tirar nove", lembra. Uma de suas cores preferidas é o azul. "As palavras dessa cor estão entre as que mais gosto de ouvir." Entre os sons azulados estão as palavras mar, palavra e o nome Catarina.

O problema é que sua namorada não se chama Catarina, mas Janaína. "Janaína é verde", diz Ramos.

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19/12/2008


 
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