Presidente nacional do PMDB, o deputado Michel Temer (SP) anda tão obcecado com a campanha pela presidência da Câmara que outro dia cabalou votos dentro do elevador do Anexo IV, onde se concentra a maioria dos gabinetes dos deputados. Só quando o elevador parou, descobriu que sua interlocutora não tinha mandato. Não foi um erro por desconhecimento. Temer ocupou duas vezes a presidência da Câmara, entre 1997 e 2000. Mas por excesso de animação. A disputa pela presidência da Casa está tão quente que, nas últimas semanas, ele retomou o pique de candidato a primeiro mandato: tem percorrido os gabinetes, comparecido a eventos, promovido encontros.
Se a eleição fosse como o destino do peru de Natal, que se resolve na véspera, Temer estaria eleito. Há dois anos, ele fechou um acordo com o PT para garantir a presidência da Câmara a Arlindo Chinaglia. Há dez dias, o PT retribuiu o apoio a Temer, que enfrentará em 1º de fevereiro o deputado Ciro Nogueira (PP-PI). Além disso, PSDB, DEM e a maior parte dos partidos que dão sustentação ao governo tendem a apoiar o candidato do PMDB. "Minha base de apoio é muito ampla e muito boa, mas preciso esperar o dia da eleição", diz Temer. "Ninguém pode ser apressado nessas questões." O seu problema é que, com tanta experiência acumulada em seis mandatos, ele é tido como um legítimo representante do alto clero, o pequeno grupo de líderes que tem as rédeas na Câmara. "Não existe parlamentar de baixo clero", afirma Temer.
ISTOÉ - Por que o sr. quer ser presidente da Câmara?
Michel Temer - Já fui presidente duas vezes e no meu tempo as coisas no Legislativo caminharam com muita tranqüilidade. Nunca fui nem quero ser um presidente burocrático. Quero realizar algo útil para o Legislativo, para a harmonia entre os poderes e para o País.
ISTOÉ - O sr. é apontado como o candidato do alto clero. O que o distingue do baixo clero? Temer - Isso não existe. Quando fui presidente da Casa não se falava em alto clero ou baixo clero. Se chegar novamente à presidência, quero eliminar as expressões baixo clero e alto clero. Quem chega ao Congresso não pode ser rotulado de baixo clero. Não admito essa espécie de distinção.
ISTOÉ - O sr. tem enviado champanhe aos demais deputados?
Temer - Não (risos). Isso eu não faço. Não sei se é prejudicial ou não, mas não mandei nenhum presente para parlamentar. O que tenho feito é visitar os gabinetes. Já visitei quase todos os deputados. Deixo a eles uma mensagem e mais para a frente vou lhes encaminhar minhas propostas. Minha campanha é exatamente essa.
ISTOÉ - Qual a sua real base de apoio?
Temer - Acho minha base de apoio muito ampla e muito boa. Mas preciso esperar o dia da eleição. Ninguém pode ser apressado nessas questões nem se influenciar pelo noticiário.
ISTOÉ - O presidente da Câmara tem como enfrentar a questão do fisiologismo?
Temer - Não podemos interferir nas relações dos partidos com o governo, mas quando se fala em fisiologismo também está se referindo a um tópico que há muito tempo faz parte do meu programa. É a questão do Orçamento. Nisso, podemos e devemos interferir.
ISTOÉ - Como?
Temer - O Orçamento é uma lei e toda lei é obrigatória. Entretanto, essa é a única lei que não é obrigatória. É editada uma lei orçamentária e depois o Executivo bloqueia determinadas verbas. Ou seja, o Executivo fica à vontade para mandar seu projeto de lei, o Legislativo coloca todas as emendas que deseja colocar e depois a lei não é cumprida. Quando isso ocorre, o deputado vai legitimamente cobrar sua emenda e o Executivo libera. Isso gera o noticiário horroroso de compra de votos. Mas, na verdade, se está apenas cumprindo a lei.
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"O senador Antônio Carlos Magalhães foi um paladino do Orçamento impositivo. Essa idéia vem amadurecendo, embora ainda haja resistência no Executivo" |
ISTOÉ - Como mudar isso?
Temer - Propomos algo que é óbvio. Uma lei orçamentária impositiva. Só entra no Orçamento aquilo que numa perspectiva para o próximo ano seja factível. Se ocorrer algo inesperado, o Executivo deve mandar uma mensagem ao Legislativo para que aprove o bloqueio desta ou daquela verba. Isso melhora o gasto do Executivo e qualifica o Legislativo.
ISTOÉ - Seu oponente, o deputado Ciro Nogueira, também defende o Orçamento impositivo. Temer - Ninguém no Parlamento é contra isso.
ISTOÉ - O sr. foi presidente da Câmara duas vezes, e essa medida nunca foi aplicada. Por quê? Temer - Falo nisso há seis anos. O senador Antônio Carlos Magalhães foi um paladino do Orçamento impositivo e essa idéia vem amadurecendo, embora ainda haja alguma resistência no Executivo. No Parlamento, é natural que as coisas passem por um processo de amadurecimento. Mas quem mais sofre com isso é a própria base de apoio do governo no Congresso.
ISTOÉ - O sr. falou em desarmonia entre os poderes. Por que isso está ocorrendo?
Temer - Deixamos de lidar com conceitos e passamos a lidar com pontuações. Hoje, mesmo no interior de cada um dos órgãos do poder há desarmonia. Essa disputa intensa dentro da Polícia Federal, por exemplo, é fruto de uma desarmonia mais global. Há desarmonia também no Judiciário. É lamentável um juiz de primeiro grau insurgir-se contra uma decisão do STF. Isso acontece quando não se governa conceitualmente, mas pontualmente.
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