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Entrevista  
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Ciro Nogueira
"Quero um legislativo de pé e independente"
O deputado Ciro Nogueira arregaça a manga para ser presidente da Câmara e diz que vai mudar a relação com o Executivo

Por Cláudio Camargo e Luciano Suassuna

Na Segunda Secretaria da Câmara dos Deputados, cuja principal atribuição é providenciar passaporte diplomático para os parlamentares, circulam aqueles rostos que você só vê se estiver ligado na TV Câmara. Mas não são os pedidos de visto que lotam este gabinete localizado no subsolo do indefectível Salão Verde. A sala onde despacha o deputado Ciro Nogueira vive cheia por oferecer livre trânsito aos colegas que se julgam excluídos do núcleo de decisões da Casa. É um espaço recortado por divisórias, pronto a abrigar, em seus recônditos, o que a imprensa vulgarmente chama de "baixo clero". Numa sala, por exemplo, sucos, pães e frutas frescas reconfortam os que perderam a hora do almoço ou desembarcaram em Brasília sem a refeição do avião. Mas é num canto, anexo à sala de reuniões, constituído apenas por uma mesa, duas cadeiras e um aparelho de telefone, que Ciro Nogueira mostra o que o caracteriza: o calor humano e a conversa ao pé do ouvido.

- Ciro, preciso de um minutinho - pede o deputado da Bahia, agitando o indicador sobre os lábios. - Agora mesmo, meu irmão. - Ciro, você vê aquele negócio pra mim - diz o deputado do Mato Grosso. - Na hora, meu irmão.

Com 40 anos completados na sexta-feira 21, o deputado do PP do Piauí é novo, mas não é novato. Um tio foi deputado pelo Ceará e seu pai se elegeu pelo Piauí. Passou a infância e adolescência em Brasília, até ser aprovado no vestibular para direito na PUC do Rio de Janeiro.

Formado, voou para Teresina, onde o sogro, patriarca da mais tradicional família de políticos do Estado, precisava de um novo herdeiro. Ele tinha iniciado seu segundo casamento, que lhe deu uma enteada, hoje prestes a se formar em medicina, e duas filhas, que logo vão entrar na adolescência. Filiado ao antigo PFL, está no quarto mandato e, pelo oitavo ano consecutivo, ocupa um dos sete lugares da Mesa Diretora da Câmara. Agora quer virar presidente. Nesta entrevista à ISTOÉ, a primeira em que assume publicamente a candidatura, explica por que:

ISTOÉ - Por quê?
Ciro Nogueira - Estou no quarto mandato e os deputados hoje têm as mesmas frustrações que eu tinha há 14 anos.

"O presidente Chinaglia fez bem em enfrentar o Judiciário. A decisão foi correta, mas tardia. Precisávamos de um presidente mais ativo"

ISTOÉ - Quais são as frustrações?
Ciro - Ver um Parlamento com uma imagem cada vez mais comprometida e não participar do processo legislativo. Na legislatura passada, tivemos o Mensalão, cassamos deputados, mas agora o momento é muito pior.

ISTOÉ - Por quê?
Ciro - Estamos espremidos feito um sanduíche, entre o Executivo e o Judiciário, que estão legislando. O Executivo com as medidas provisórias e o Judiciário interpretando a Constituição como ele acha que deve ser. Isso precisa mudar. O Legislativo deve ser mais independente. Se o presidente da Câmara solicitar um cargo ao presidente da República, isso é uma nota de rodapé. Agora, se o ministro Gilmar Mendes (presidente do STF) pedisse um cargo ao Lula seria manchete. Não existe mais a separação entre o Executivo e o Legislativo e é isso que queremos combater. O Judiciário se aproveitou de temas como o nepotismo e a fidelidade partidária para ficar bem com a sociedade.

ISTOÉ - Mas isso só aconteceu porque o presidente Arlindo Chinaglia desrespeitou uma decisão judicial ao não dar posse ao suplente de um deputado que mudou de partido.
Ciro - O presidente Chinaglia fez bem em enfrentar o Judiciário e determinar parlamenque qualquer medida será tomada depois de o caso ser julgado em última instância. A decisão foi correta, mas tardia. Precisávamos de um presidente mais ativo. Chegar ao ponto de dizer que eles têm que legislar porque o Congresso está parado é a mesma coisa que passarmos uma lei acabando com todos os processos que estão engavetados na Justiça. Mas é verdade que o STF está fazendo coisas que poderíamos ter feito antes. Temos que votar e não permitir que o Judiciário usurpe nosso papel de legislar.

ISTOÉ - Por que o sr. se considera capaz de mudar isso?
Ciro - O Congresso tem se agachado por conta de uma relação muito promíscua com o Executivo. Quero um Legislativo de pé e independente.

ISTOÉ - Onde o sr. reúne apoios para mudar essa relação?
Ciro - Os líderes que se tornam presidente são candidatos apenas um ou dois meses antes da eleição. São candidaturas que surgem das cúpulas, do consenso de um grupo pequeno. Estou tentando o caminho inverso, discutindo com os parlamentares. Reunimos deputados de diversos partidos.

ISTOÉ - É o chamado baixo clero?
Ciro - Eu chamo de maioria. A nomenclatura "baixo clero" é um instrumento de um pequeno grupo da Casa para denegrir a maioria dos deputados. Chamam de baixo clero aqueles que lutam para a liberação de emendas orçamentárias, levar um calçamento, uma água para as pessoas que estão necessitando. O alto clero são as pessoas que se utilizam da Câmara para conseguir a diretoria financeira de uma estatal, trocar a votação de uma emenda por uma nomeação. São essas coisas que precisamos passar a limpo.

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21/11/2008


 
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