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"Estamos no pior da crise"
O ministro da Fazenda diz que as medidas começam a fazer efeito agora e que o Brasil tem como resistir à desaceleração mundial

Por Octávio Costa e Adriana Nicacio

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, passou a tarde da terça-feira 28 no Congresso, negociando a aprovação das medidas de combate à crise econômica. Depois de ouvir os líderes da base governista, voltou ao seu gabinete para falar com exclusividade à ISTOÉ. Mante ga detalhou o impacto da tempestade financeira no Brasil e nem tocou no copo d’água sobre sua mesa, no dia mais quente da história de Brasília. Só interrompeu para atender o presidente Lula, que ligava pela segunda vez em menos de duas horas para se informar sobre o desempenho das bolsas e do câmbio. Após a liga ligação de cinco minutos, às 18h40, o presidente ficou sabendo que, naquele dia, a Bovespa fechou em alta de 13,42% e o dólar em queda de 6,23%, cotado a R$ 2,183.

Mas soube também que é cedo para qualquer comemoração. A volatilidade continua forte e Mantega acredita que a economia mundial vive o seu pior momento. Segundo ele, a crise possivelmente bateu no chão, mas a recuperação será lenta, sem horizonte visível. Para Mantega, o Brasil está resistindo bem. Mas o futuro vai depender do tamanho da encrenca mundial. “Recessão ou depressão, eis a questão”, parodia o ministro, se referindo ao futuro da economia americana.

ISTOÉ – A crise econômica mundial já está repercutindo no Brasil?
Guido Mantega – É uma crise mundial que atinge todos os países, porém de forma distinta. Ela tem seu epicentro nos países avançados: Estados Unidos, União Européia e Japão. Mas atinge também os países emergentes.

Nesses países, vai provocar estragos menores, porque eles têm condições mais sólidas. A equação se inverteu ao longo dos últimos anos. No passado, havia os países desenvolvidos e os países em desenvolvimento. Hoje, os países emergentes, principalmente os dinâmicos, possuem características que lhes dão condições de resistir melhor às crises.

ISTOÉ – Quais são essas características?
Mantega – A economia desses países é dinâmica, costuma crescer 4%, 5%, 8% e até 10%. A geração de riqueza é maior do que no Japão, na União Européia e nos Estados Unidos, hoje países envelhecidos. Em segundo lugar, os países emergentes têm um grande potencial de mercado interno.

China, Índia, Rússia e Brasil têm no seu mercado interno uma reserva de valor que pode se expandir e substituir o mercado externo. Mesmo que haja uma desaceleração da economia mundial, esses países poderão aumentar o intercâmbio entre si.

"A questão dos derivativos é um fato perturbador, mas limitado. Houve exagero, mas as empresas são sólidas”

ISTOÉ – Então, onde os países emergentes podem sofrer o impacto?
Mantega – Estão sofrendo, agora, o que todos estão sofrendo: problemas de liquidez e de crédito. O sistema financeiro globalizado tem vasos comunicantes para todo lado. No momento em que há uma crise como essa, há reflexo nos países emergentes.

O crédito em dólar seca. E uma parte dos empresários brasileiros se financia lá fora. Também afeta o comércio exterior, pois há problemas com os adiantamentos de contratos de câmbio, o ACC. E há ainda uma evasão de recursos para os países avançados. Sai dinheiro da bolsa e dos fundos.

ISTOÉ – Além disso, há reflexo no comércio exterior.
Mantega – Por enquanto, no caso do Brasil, ainda não houve reflexo comercial. Mas poderá haver quando a queda da demanda internacional resultar numa queda da demanda por commodities. O Brasil tem uma vantagem em relação à China. Nossa abertura externa é pequena. Nossas exportações representam apenas 13% do PIB. A abertura chinesa é de 37% do PIB. Se o comércio internacional cair 10%, para nós significará uma queda de 1,3%. Haverá também certa substituição pelo mercado interno, que está sobrando. A demanda doméstica cresceu 8,7% no último trimestre de 2007. Era exagerado, tanto que tomamos medidas para reduzir a demanda.

ISTOÉ – O problema imediato do Brasil é a escassez de crédito?
Mantega – É crédito em dólares e crédito em reais. Quanto aos dólares, houve fechamento das linhas. E, no caso dos reais, alguns investidores tiraram dinheiro de bancos e da bolsa, o que baixou o valor dos ativos. O terceiro problema é o dos derivativos.

Quando há saída de capitais do País, com o desmonte das aplicações estrangeiras, estimula-se a valorização do dólar. E quando o dólar dá um salto, como ocorreu, ele dá prejuízo para os empresários que tinham feito apostas cambiais do lado errado.

ISTOÉ – O sr. ficou surpreso com essas operações das empresas?
Mantega – Fiquei. O mercado derivativo de mercadorias é normal, tem mais de 100 anos e existe no mundo todo. Foi feito para viabilizar o hedge, a proteção de determinados valores.

Depois surgiram derivativos de câmbio e de índice. Parte das operações não é realizada em bolsa, mas no mercado de balcão. Quando é feita por instituição financeira aqui no Brasil, é registrada na Cetip, órgão oficial. Mas quando é feita por uma subsidiária de uma empresa no Exterior, não há registro. A operação é fechada lá fora. O mercado é criativo.

ISTOÉ – O problema está aí.
Mantega – Sim, mas a impressão que eu tenho, e quase certeza, é que as principais operações especulativas com derivativos envolveram as três empresas que já anunciaram as perdas: Sadia, Aracruz e Votorantim. A Sadia já cobriu as perdas na BM&F e a Votorantim também. A Aracruz está negociando com os bancos, em via de resolver o problema.

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5/11/2008


 
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