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Entrevista  
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Carlos Minc
"Chega de ecopicaretagem"
O ministro do Meio Ambiente não quer atrapalhar o PAC, mas não pára de comprar briga com seus colegas da Esplanada dos Ministérios

por Hugo Marques e Sérgio Pardellas

Pela semelhança física, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, já foi confundido nas ruas com o ator americano David Carradine, famoso pelo seriado Kung Fu. Como o personagem Gafanhoto, que usava golpes da luta marcial para se defender, o papel principal do ministro Minc no governo Lula é enfrentar adversários de peso. A briga do momento é com o ministro do Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel. Minc incluiu os assentamentos do Incra no topo da lista do desmatadores. "Os assentamentos na Amazônia não são sustentáveis", disse ele em entrevista à ISTOÉ. Sua próxima briga será contra os vendedores de planos de manejo. O ministro calcula que metade do manejo em todo Mato Grosso, por exemplo, está sob suspeição. Naquele Estado, ele pretende aumentar de duas para seis as barreiras da Polícia Rodoviária Federal. Minc diz que está destravando a burocracia que emperrou a gestão de Marina Silva. "O Fundo Amazônia, por exemplo, com doações contra o desmatamento, vinha da gestão Marina, mas estava encalacrado há um ano e meio", explica. "Sou ecologista, mas sou favorável ao desenvolvimento."

ISTOÉ - O desmatamento está crescendo?
Carlos Minc - Nos três primeiros meses da minha gestão, junho, julho e agosto, que são os piores meses - de seca, estiagem e queimadas -, a média foi de 650 quilômetros quadrados. Para esses três meses, foi a menor média desde 2004. Minha expectativa é de que no próximo ano continue o viés de baixa.

ISTOÉ - A redução das atividades econômicas, diante da crise internacional, diminui os danos ambientais?
Minc - Talvez. Mas não vamos torcer para desacelerar a economia e caírem os preços das commodities para reduzir a pressão sobre o bioma. Nos últimos meses, houve queda do desmatamento e o preço da soja e da carne continou alto. Sou ecologista, mas sou favorável ao desenvolvimento.

"Suspendi o licenciamento da BR-319, mesmo com o ministro Alfredo Nascimento dando pulos de raiva"

ISTOÉ - Como conciliar as exigências ambientais com a necessidade de dar andamento às obras do PAC?
Minc - Não vou atropelar as exigências ambientais. O que não der para fazer, não vou fazer. Temendo o mesmo desmatamento verificado na BR-163, suspendi o licenciamento ambiental da BR-319 por 60 dias, mesmo com o ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento, dando pulos de raiva. Sentamos e discutimos.

ISTOÉ - O sr. não teme as pressões políticas?
Minc - Houve uma pressão muito grande do ministro Edison Lobão, de Minas e Energia, em cima de mim para o licenciamento ambiental da usina de Jirau, que é o pepino da vez. O Lobão falou em janela hidrológica. Ou seja, pediu que fizesse antes das chuvas senão a obra atrasaria meses.

ISTOÉ - E o que foi feito?
Minc - O tempo da licença não é o tempo da chuva. É o tempo da lei.

Se conseguir cumprir todas as exigências e pegar a janela hidrológica, melhor. Mas se fizer lambança, o Ministério Público entra na Justiça e você não perde apenas a janela: perde a janela, a porta e o teto. Falei isso, ele ficou meio assim, mas viu que eu tinha razão. A ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, também.

ISTOÉ - A briga promete, então?
Minc - Sou favorável às boas licenças. Não vou ser o beque da roça. Ecologista não tem que barrar nada a priori. Tem que barrar o que tem que ser barrado.

ISTOÉ - Nos últimos meses, o que mudou no Ministério?
Minc - Dentro da continuidade, agilizei o licenciamento ambiental, uma das questões que começaram a gerar atritos com o presidente Lula e com a ministra Dilma. Não se trata de licenciar sem pensar nas exigências, mas, como diria o saudoso Tim Maia, botar o farol onde é relevante. Vamos ao ponto "G", vamos ao que importa.

ISTOÉ - O sr. está satisfeito com as mudanças?
Minc - Digamos que já adiantamos 60%. Mas falta bastante ainda.

ISTOÉ - O que emperra?
Minc - Há diferença entre criar unidade e implantá-la. A ministra Marina tem o mérito de ter criado milhões e milhões de hectares de área protegida. Mas, das 56 reservas extrativistas, 52 não tinham plano de manejo. Já fizemos oito planos de gestão extrativista e vamos licitar outros 40 planos de manejo florestal.

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29/10/2008


 
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