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Editorial  
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Pacotão oficial

O governo brasileiro não tem medido esforços para injetar liquidez no mercado. Abriu linhas de crédito para áreas específicas – da agricultura à exportação, além da construção civil. Lançou mão de compulsório bancário para fazer girar o dinheiro. Livrou o investimento estrangeiro de pagar IOF. E derramou quase US$ 23 bilhões em leilões de câmbio para conter a alta da moeda americana. No todo, mais de duas dezenas de medidas e R$ 200 bilhões entraram em jogo. O mais arrojado dos movimentos, no entanto, foi a concessão de poderes especiais para que o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal comprassem, parcial ou totalmente, com ou sem controle acionário, a qualquer preço, instituições financeiras (bancos, seguradoras, fundos de pensão, de capitalização e empresas financeiras) que venham a estar em dificuldade. Sofreu críticas pelo movimento estatizante. Na prática, está apenas repetindo o que fez a Inglaterra, os EUA, a Alemanha, a França e uma série de outros, nos últimos tempos. A nova ordem econômica, com o Estado forte e interventor, está posta. Não é um fenômeno continental, regional e muito menos local. É global. Pode ser injusto para alguns e vantajoso para outros, mas é a saída de consenso. As leis de mercado se mostraram frágeis, inúteis e insustentáveis por si só. A virada de postura não se dá pura e simplesmente por simpatias ideológicas. A questão elementar é salvar o capitalismo, em risco desde que mergulhou irresponsavelmente o sistema numa balbúrdia sem precedentes. Há um sentido psicológico em tudo isso. O mundo teme o risco sistêmico em larga escala. A entrada do xerife é pré-condição para acalmar ânimos. Com razoável serenidade e firmeza, sem perder o otimismo jamais, os ministros Guido Mantega e Henrique Meirelles (foto) têm conduzido a versão brasileira da nova rota em curso. Medidas preventivas são tomadas antes mesmo que qualquer ameaça se concretize. Evita-se assim incorrer no erro americano. Lá, autoridades deixaram a crise seguir seu curso, bancos quebraram e depois correram atrás do prejuízo de maneira estabanada, sem conseguir conter o dique. A cautela brasileira ainda vai gerar bons dividendos.

Carlos José Marques, diretor editorial

 

29/10/2008


 
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