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Brasil
Quem vai pôr ordem no cassino?
Apesar da aprovação do pacote de Bush, a crise que assola o mundo vai exigir mais intervenções e um organismo de controle global dos mercados

Octávio Costa

FOTO: SPENCER PLAT/AFP
Cenário sombrio A Bolsa de Valores de Nova York perdeu 777 pontos só na segunda-feira em que a Câmara rejeitou o pacote financeiro de Bush
O próximo ocupante da Casa Branca, seja Barack Obama, seja John McCain, terá um árduo desafio pela frente. Caberá ao futuro presidente americano a responsabilidade de reconstruir as bases do sistema financeiro e restaurar a confiança da sociedade nas leis do mercado. Os fatos da semana passada mostram que o pacote de socorro federal dos EUA, aprovado na tarde da sextafeira 3, não será suficiente para repor o carro nos eixos. A desconfiança se generalizou. O clima de incerteza contaminou a Europa e seus efeitos começaram a afetar as economias emergentes, para as quais as torneiras do crédito internacional se fecharam. Os sinais de recessão no mundo desenvolvido jogam por terra as cotações das principais commodities, em prejuízo das grandes empresas exportadoras dos chamados BRICs: Brasil, Rússia, Índia e China. "Diante deste cenário, o futuro presidente terá de se comportar com a energia e a grandeza de Franklin Roosevelt nos anos 30", afirma o professor Carlos Lessa, da UFRJ. E de preferência ter ao lado, para consultas, um economista do porte de John Maynard Keynes, que ajudou os EUA a sair da Grande Depressão.
Os EUA, sem dúvida, se ressentem da absoluta falta de liderança política. A queda recorde de Wall Street na segundafeira 29 de setembro, quando o Dow Jones despencou 777 pontos, foi prova inconteste de crise de autoridade de George W. Bush. Um fosso separa a imagem de Roosevelt da dos políticos atuais. Apesar de todos os esforços do presidente Bush e dos líderes dos partidos democrata e republicano, o Congresso americano iniciou a semana passada rejeitando, por 228 votos a 205, o pacote de socorro aos bancos negociado com o Departamento do Tesouro. A leitura eleitoreira dos parlamentares espalhou pânico pelos continentes. Ao negar apoio ao pacote de US$ 700 bilhões, a classe política gerou uma perda patrimonial nos
sem liderança em fim de mandato, o presidente George W. bush não tem cacife para enfrentar a crise

EUA superior a US$ 1 trilhão. Thomas Friedman, um conceituado colunista do The New York Times, lamentou: "Temi pelo futuro de meu país poucas vezes em minha vida. Em 1962, quando menino de nove anos, acompanhei a tensão da crise dos mísseis com Cuba; em 1963, com o assassinato de John Kennedy; no 11 de setembro de 2001; e nesta segundafeira, quando os republicanos derrubaram o pacote de resgate bipartidário." Em discurso na Universidade de Nevada, na cidade de Reno, Barack Obama afirmou que não é hora de buscar os responsáveis. "A casa do vizinho está pegando fogo e ameaça a sua casa. Não importa se ele dormia com o cigarro aceso. É hora de apagar o incêndio." O democrata alertou que, se a crise se aprofundar, as pessoas terão dificuldade para obter financiamento para comprar a casa própria, para pagar a faculdade ou comprar um carro. O republicano McCain fez discurso no mesmo sentido. E, na quartafeira 1º de outubro, por 74 votos a 25, o Senado aprovou o pacote de socorro, com penduricalhos também eleitoreiros, que elevam a conta para US$ 850 bilhões. Na sextafeira 3, a Câmara aprovou, por 263 a 171, a nova versão do plano.
Entre os economistas, porém, o pacote já não é tão relevante. Permitirá o retorno da liquidez, à medida que o Tesouro absorver os títulos podres que se multiplicaram com a bolha imobiliária. Mas a negociação do secretário do Tesouro, Henry Paulson, com os bancos será dura. Eles terão que engolir deságios altos. Além de J.P.Morgan, Citibank e Bank of America, a única instituição com folga de caixa é o Wells Fargo, que na sextafeira 3 anunciou a compra do Wachovia por US$ 15,1 bilhões. Até então, o Wachovia, quarto maior banco de varejo americano, estava para se associar ao Citibank. Para além da recuperação das instituições, estão em xeque os atuais mecanismos de controle do mercado, o que poderá propiciar uma nova ordem econômica mundial. Fracassaram as iniciativas tomadas pela SEC, o órgão regulador do mercado de capitais nos EUA, que, em 2004, autorizou os bancos de investimentos, com patrimônio superior a US$ 5 bilhões, a aumentar a alavancagem. Uma coincidência: à época, Henry Paulson participou da reunião, defendendo os interesses privados da Goldman Sachs. A liberalidade mostrouse desastrosa. As leis de mercado não funcionaram e, agora, como nos tempos de Roosevelt, só resta ao Estado intervir. Em boletim da última semana, a agência de classificação de riscos Standard & Poor's lembra que "muitas das regras que regem o sistema financeiro ainda têm raízes na Grande Depressão da década de 30". É hora de revêlas. "A demanda por reformas no marco regulatório vai ajudar a preservar os ativos financeiros e não financeiros", diz a S&P, ressaltando, porém, que o mercado não vai se recuperar no curto prazo.

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8/10/2008


 
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