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Cultura  
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Artes visuais
Desvio do lugar-comum
Aclamado como um dos principais expoentes da arte conceitual internacional, o carioca Cildo Meireles expõe na Tate Modern

por Paula Alzugaray

Vermelho-sangue
Embora diversas interpreta ções da instalação Desvio para o vermelho associem a obra à violência militar, Meireles afi rma que o trabalho fala mais de cor do que de política

Há muitos atalhos possíveis para o entendimento da obra de Cildo Meireles. Mas a entrada mais evidente se dá pelo reconhecimento de objetos que nos são familiares: relógios de parede, picolés, garrafas de Coca-Cola, mobiliário doméstico.

Essa normalidade sofre um abalo quando o espectador se dá conta de que os relógios não respeitam o tempo, os sorvetes são de água congelada, as garrafas contêm a inscrição "yankees go home" e a mobília é inteiramente vermelha. As instalações de Meireles provocam um desvio da ordem natural das coisas.

Aos 60 anos, o artista carioca terá oito de suas grandes instalações, concebidas entre 1967 e o começo dos anos 2000, em uma exposição antológica organizada pelo museu Tate Modern, de Londres. O ano de 2008 será marcado pelo reconhecimento de sua obra: ele recebeu também o Prêmio Velázquez, na Espanha, e o Ordway, do New Museum de Nova York.

CULTURAS HÍBRIDAS Babel (2001) é um monumento à convivência

Alguns dos momentos mais impactantes e contundentes da arte brasileira estarão na Tate. Ao primeiro caso aplica-se Babel (2001), uma torre de cinco metros de altura composta por centenas de rádios sintonizados em diferentes estações de diversos países. O trabalho impressiona não só pela sua escala monumental, mas também pela eficiência de sua metáfora do hibridismo cultural contemporâneo. Já Missão/missões (1987), produzido com 600 mil moedas, 800 hóstias e dois mil ossos, é uma encenação poética dos massacres de indígenas gerados por interesses econômicos e religiosos. É uma obra que traduz a faceta antropológica do artista e, talvez, uma herança do pai, um indianista que denunciou sucessivos crimes contra tribos do centro do Brasil. Esse cunho etnográfico já se revelava no início dos anos 1960, quando Meireles desenhava máscaras africanas. Seu engajamento político começou em 1969, quando o Dops invadiu a exposição Pré-Bienal de Paris, no MAM RJ. "Me senti impelido a começar a tratar de política e meu desenho começou a se referir a aspectos sociais", conta à ISTOÉ.

Cildo Meireles: "estou curioso para ver o resultado da próxima Bienal"

A política se articula ao seu discurso de forma incisiva, mas nada óbvia. Aparece em obras como Inserções em circuitos ideológicos (1970) - garrafas de Coca-Cola e cédulas de dinheiro carimbadas com mensagens subversivas - ou em gestos. Sua recusa em participar da 27ª Bienal, em protesto contra a reeleição de Edemar Cid Ferreira ao Conselho da Fundação, foi uma ação política de repercussão internacional, que acabou destituindo o então banqueiro. Mas novas denúncias surgiram, indicando a continuidade de uma situação irregular. "Esse tipo de estrutura administrativa vai trazer alguma solução? Essa é uma pergunta que tem que ser colocada quando se discute a Bienal", afirma Meireles, referindo-se ao projeto da 28ª Bienal, que propõe uma auto-reflexão sobre o evento. "Não há dúvida de que a Bienal precisa se pensar. Compreendo que o Ivo (Mesquita, curador) tenha aceitado trabalhar numa circunstância como essa, mas não sei se isso não dá uma sobrevida a um modelo administrativo que não parece estar funcionando muito bem", polemiza.

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26/9/2008


 
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