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| SEM TIROS Salles mostra jovens da periferia que evitam o crime, como o personagem evangélico vivido por José Geraldo Rodrigues |
Cidade Líder é um bairro-dormitório da zona leste de São Paulo com 124 mil habitantes. Muitos de seus moradores, no passado, formavam o contingente dos metalúrgicos que trabalhavam nas montadoras do ABC. Hoje, a juventude nascida dessas famílias operárias abriu o leque de suas atividades porque, mesmo nas fábricas, os empregos se tornaram escassos. A saída, então, é ser, por exemplo, motoboy, frentista ou sonhar um dia se tornar motorista de ônibus ou jogador de futebol. É justamente isso o que fazem Dario, Denis, Dinho e Reginaldo, os filhos da empregada doméstica Cleuza, personagens do filme Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, que estréia na sextafeira 5. À procura de uma locação que melhor servisse ao drama dessa típica família pobre paulistana, a dupla de cineastas escolheu por acaso esse bairro paulistano. Mas é importante se ter em mente que esse ambiente e suas redondezas cuja força política colocou na Presidência do País um ex-metalúrgico é hoje uma aglomeração social sem identidade, mostrada pelo filme como um dos redutos da religião evangélica. É importante também perceber que, como em muitos filmes de Salles, mais uma vez o chefe dessa família é uma figura ausente. Salles tem uma tese a respeito: "A ausência do pai é um problema atávico. Fomos fundados por um paipatrão que, após nos nomear, partiu com todo o ouro e a prata que ele conseguiu amealhar por aqui."
Lançado em Cannes em maio passado, quando a atriz Sandra Carvelloni, que interpreta a empregada Cleuza, recebeu o prêmio de melhor atriz, o filme foi comparado, especialmente pela crítica italiana, ao clássico Rocco e seus irmãos, do diretor italiano Luchino Visconti, um dos fundadores do neorealismo. A semelhança pára no fato de ambas as produções retratarem uma família composta apenas por filhos homens. É verdade que, como o cineasta chinês Jia Zhang-ke, cujos enredos são construídos a partir do material bruto das transformações urbanas de seu país, Salles atualiza alguns métodos do neorealismo italiano ao filmar em ambientes naturais. E, no caso desse novo trabalho, é especialmente feliz ao enquadrar a realidade "concreta" de São Paulo. Ele parece fascinado pelo fluxo constante dos carros, pelo serpenteio dos viadutos e pelo cinza-chumbo do asfalto que seus personagens atravessam sem medo. O outro ensinamento neo-realista dá-se no uso de atores iniciantes ou não-profissionais (exceção feita a Sandra, estrela do Grupo Tapa, e a Vinícius de Oliveira, lançado em Central do Brasil e aqui no papel do jogador de futebol Dario). Mas, em sua estrutura, Linha de passe distancia-se da encenação trágica do diretor italiano, que em Rocco já mergulhava na fase "operística".
Conforme sugere o título, o filme "passa a bola" entre as histórias dos vários personagens - a mãe que fica grávida e perde o emprego; o jogador de futebol que tenta a sua última chance em um time profissional; o frentista evangélico que acaba tornando-se violento e agride o patrão; o motoboy que decide partir para o roubo; e, enfim, o garoto que rouba um ônibus e sai pela cidade porque seu pai, que ele nunca conheceu, é motorista de coletivo. Esse último personagem foi inspirado numa história real e os outros bem que poderiam ter a mesma origem. Especialmente o motoboy Denis. Ao se dar mal em um roubo e fazer refém um homem engravatado, ele lhe diz em uma frase um desabafo que resume o olhar das elites sobre a massa anônima das periferias: "Me olhe, você está me enxergando?" É justamente esse o desejo de Walter Salles e Daniela Thomas nesse belo e triste Linha de passe.
ENXERGAR O OUTRO
ISTOÉ - Por que filmou em São Paulo?
Walter Salles - Amo o Rio, mas não queríamos fazer mais um filme sobre a oposição entre o morro e o asfalto, um tema muito explorado pelo cinema brasileiro recente. São Paulo, por ser uma cidade industrial, permite mais meios-tons.
ISTOÉ - A mãe mantém a unidade da família?
Salles - Sim, e não somente nessa história. Digo isso pelo número de mulheres entrevistadas durante a pesquisa que fizemos. A mãe é geralmente o esteio moral e ético da família.
ISTOÉ - É importante mostrar uma periferia sem tiros?
Salles - Mostrar que quem mora em outro canto da cidade não representa uma ameaça para a classe média é hoje fundamental. Já estamos cansados de um certo tipo de representação monocromática do Brasil. Por isso, resolvemos falar de jovens que moram na periferia, mas não usam armas, não derivam para o tráfico, mas tentam se reinventar - por mais difícil que isso seja.
ISTOÉ - Por que o sr. não filma a elite?
Salles - Para começar, eu acho que na vida a gente só se completa no outro. Se um cineasta tivesse que se limitar a olhar apenas sua própria classe social, um filme extraordinário como Rocco e seus irmãos não existiria. Afinal, Visconti era um aristocrata - e também comunista, essas coisas que só acontecem na Itália. Se estivéssemos só falando da nossa classe social por aqui, ia ter gente reclamando do fato de que não sabemos olhar para os outros. |
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RISO FRATERNO Segundo Salles, a mãe é o "esteio moral e ético da família" |