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Editorial  
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O gasto, o rombo e o remendo

Pressionado pelo aumento dos gastos públicos, pelo desvio de rota da inflação e por recuos sintomáticos na balança comercial, o presidente Lula tropeçou na resposta: "O governo não tem mais onde cortar", disse ele na semana passada quase ao mesmo tempo que eram divulgados números sombrios nas contas externas - cujo desempenho foi registrado como o pior dos últimos 60 anos. Tamanho do rombo: US$ 17,4 bilhões só no primeiro semestre deste ano. E, como prega a velha lição, quem não fatura não deveria gastar. Para evitar que o País passe por turbulências além da medida, Lula teria de rever a premissa de falta de opções de corte. Mas os sinais seguem na direção oposta. O governo cogita, por exemplo, conceder um aumento a 350 mil servidores públicos, classificados como do "grupo de elite", que inclui funcionários da Receita Federal e do Banco Central. No campo da folha de trabalhadores estatais, uma cumbuca onde o populismo encontra grande ressonância, Lula já concedeu sob sua gestão ganhos que ultrapassam o índice de 255%, no acumulado do período. Entre 2002 e 2008, a conta com servidores saltou de R$ 75 bilhões para R$ 130 bilhões. Um aumento real de 72%. Assim se dá um quadro inusitado em que a folha do setor público vai crescendo e tem reajustes salariais acima da do setor privado. A migração de interessados de um lado para outro também sobe na mesma proporção e colabora com o inchaço da máquina. O Estado pesado e ineficiente sempre foi uma das grandes travas do desenvolvimento. A sangria dos gastos com apadrinhamentos, descontrole no aparato estatal e projetos faraônicos de estatais - que quase nunca se revertiam em benefícios concretos para a sociedade - é uma fase superada. Mas seu estancamento só foi possível graças à onda de privatizações que transferiu para a iniciativa privada parte do papel e das empresas do Estado. O governo hoje continua a gastar mais, mesmo sem tantas estatais para bancar. Diante do temor da inflação, fala em ajustes pontuais. O aumento de juros é a arma mais usada. Verdadeiro remendo, incapaz de conter o dique da carestia. Se não olhar para a própria carne, que vive em regime de engorda, vai colocar as despesas do governo como o maior dos propulsores da inflação. Uma volta ao tempo que ninguém mais quer ver.

CARLOS JOSÉ MARQUES,
DIRETOR EDITORIAL

 

1/8/2008


 
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