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Até que ponto você pode mentir para seu filho?
Na primeira infância as crianças têm pouca percepção do que é a mentira, mas quando crescem podem confrontar os pais. Especialistas dizem como tratar de temas delicados com os filhos

Por CLAUDIA JORDÃO E DANIELA MENDES



LUCAS UEBEL/PREVIEW.COM
DECEPÇÃO Ricardo descobriu na adolescência que era adotado e teve de fazer terapia

Há casos extremos nos quais a mentira provoca problemas psicológicos que se perpetuam por toda a vida. O gaúcho Ricardo Fischer descobriu, aos 12 anos, que era adotado ao encontrar a papelada de sua adoção. E até hoje, 30 anos depois, tenta lidar com a rejeição dos pais biológicos, com o segredo mantido em torno de sua história e com os mistérios de sua biografia. Desde criança, recebe apoio psicológico e por três anos, dos 35 aos 38 anos, tomou antidepressivos. "A mentira acabou com a minha vida, eu era uma pessoa infeliz sem saber o motivo. Aí, descobri que o que me deixava doente era a farsa que eu vivia", diz ele, hoje presidente da ONG Filhos Adotivos do Brasil.

É importante lembrar ainda que o filho se espelha no comportamento dos pais para moldar sua personalidade - e ninguém quer criar um mentiroso contumaz. Aquela mania do pai de pedir à criança para atender o telefone e dizer que ele não está, por exemplo, é péssima. A mentira se torna algo natural e pode ter reflexos no futuro. É o caso de um paciente de 18 anos da psicopedagoga Maria Irene. Ele confessou a ela que havia falsificado o boletim escolar. Ao repreendê-lo, perguntou se ele era capaz de imaginar a reação de seus pais. O jovem respondeu que eles não tinham moral. "Ele me disse que, apesar de na época só ter cinco anos de idade, lembrava exatamente do dia em que o pai subornou um policial rodoviário para não ser multado", relata Maria Irene.

Quando chega à adolescência, o jovem tem plena consciência do certo e do errado. "Já foi o tempo em que eu fazia joguinho porque não podia responder a verdade ou porque estava sem paciência", diz a carioca Adriana Bernardes, 40 anos, mãe de quatro meninas com idades entre 11 e 18 anos. Ângela, a mais velha, tem as histórias frescas na memória: "Eu era pequena e adorava bichinho de pelúcia. Sempre pedia para minha mãe comprar e ela dizia 'amanhã a gente vai'. Um dia eu falei: 'Mãe, esse amanhã nunca chega!'"

ROGÉRIO ALBUQUERQUE/AG. ISTOÉ
FIRME Nelcy e Olívia: ela só falou à filha do namorado quando a relação engatou

De acordo com os especialistas, o importante nesta fase é ter um canal de comunicação aberto. "Se o pai quer cobrar diálogo, confiança, conversa franca, também tem de jogar limpo com o adolescente", afirma o hebiatra (médico de adolescentes) Williams Ramos, presidente da Associação Brasileira de Adolescência (Asbra). Adriana diz que sempre conversou muito com as filhas, tanto das duas separações pelas quais passou quanto do seu fraco desempenho escolar nas disciplinas de exatas. "Nunca fiquei constrangida ao falar das minhas notas ruins", diz ela. Para Ângela, que teve dificuldades em concluir o último ano do ensino médio na escola americana, as deficiências da mãe serviram de exemplo. "Ela me falava: 'Também tive problemas, estudei e consegui me formar. Mete a cara nos livros e você também vai passar'", conta. Segundo a psicóloga e pedagoga Fabiana Luckemeyer, especializada no atendimento de adolescentes, os pais costumam ter medo de serem julgados pelos filhos, de perder a moral e a admiração. "Isso não acontece se houver uma conversa franca", diz Fabiana.

PAPO LEGAL Adriana com as quatro filhas: diálogo aberto sobre tudo com as meninas

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1/8/2008


 
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