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Certa vez, eu gravava uma telenovela, quando se deu um fato curioso: havia, na trama, a visita de um circo à cidade fictícia, evento prestigiado por quase todas as personagens da história e, para evitar o deslocamento de todo o elenco, resolveram que o circo seria montado e apresentado dentro do estúdio. Para lá seguiram os equilibristas, trapezistas, palhaços e começamos os trabalhos. Eram muitas cenas e o plano de gravação, previsto para dois dias, terminou transformando-se em três. Chegou enfim a vez dos chimpanzés amestrados que, talvez por sua incapacidade de verbalizar o descontentamento com a produção, foram deixados para o fim. Entre os símios, havia a eterna macaca de laço de fita na cabeça e saiote pregueado e lembro que comentávamos sobre a tristeza de tudo aquilo, porque geralmente esses animais são brutalizados para aprender os truques, quando a macaca gritou e disse não. A seu modo. Cansada da espera, das luzes e da confusão do estúdio, ela mordeu a mão do treinador com uma violência ímpar. O sangue espirrou e o caos tomou conta da tarde. A história ganhou contornos de anedota, mais tarde, porque eu, na época trabalhando mais do que de costume, atravessava um período de grande stress e tinha variações de humor constantes. Corre a lenda que o produtor da novela, Sérgio Madureira, ao ser informado da confusão, levou as mãos à cabeça e disse:
- Meu Deus! A macaca está pior que o Falabella!
Anedotas à parte, o fato é que a imagem da chimpanzé brutalizada passou a morar comigo, desde então, e é uma das minhas flores de obsessão mais recorrentes.
Certa ocasião, entrevistando Bárbara Heliodora, a grande crítica e estudiosa de teatro, perguntei-lhe o que a irritava como espectadora, já que suas resenhas são sempre temidas pela classe teatral e seus comentários são propagados nas rodas e telefonemas da classe. Ela respondeu-me que a experiência teatral precisava transformar o espectador numa pessoa melhor, fosse através do riso, da reflexão ou da emoção, mas que era essa a premissa básica para a realização no palco. Se isso não ocorresse, o teatro não se justificava e, como bem disse Nelson Rodrigues, era obsceno como uma missa profana.
Tenho observado o processo do circo midiático que quer nos trancafiar a todos na gaiola das macacas brutalizadas. É sedutor o chamado. São lisonjeiros os convites e, se a atenção não for redobrada, estamos todos condenados a perder a alma no mercado de bens mais do que perecíveis. O culto à celebridade, no fundo, é um sinal do desespero da nossa era, o grito de uma civilização que não encontrou saídas para os próprios labirintos.
Mas se aprendi alguma coisa naquela tarde no circo de mentira é que as macacas de gaiola podem dizer não. E, a seu modo, elas acabam dizendo.
