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Película da discórdia
Três tragédias recentes colocam em xeque o uso do insulfilm como item de segurança

CLAUDIA JORDÃO

FOTOS:HENRY MILLEO/GAZETA DO POVO/FOLHA IMAGEM
Rafaele foi baleada na cabeça e não sobreviveu. De dentro de um carro com os vidros revestidos com película, ela e o namorado foram confundidos com bandidos e atingidos por policiais

Atingida por um tiro na cabeça, no domingo 13, Rafaele Ramos de Lima, 21 anos, chegou a ser socorrida, mas não resistiu. Dias antes, João Roberto, três anos, também foi alvejado na cabeça, deu entrada no hospital com morte cerebral e faleceu horas depois. As tragédias que interromperam a vida de João e de Rafaele – ele no Rio e ela em Porto Amazonas (a 80 quilômetros de Curitiba) –, este mês, são cercadas de tristes semelhanças. Ambas aconteceram à noite e as vítimas foram atingidas dentro de seus veículos por policiais em ação, que alegam ter confundido os automóveis com outros usados por criminosos em fuga. Além disso, tanto o Palio que a mãe de João dirigia quanto o Gol conduzido pelo namorado de Rafaele tinham os vidros escurecidos por película – o que dificulta ou inviabiliza a visão de dentro do carro para quem está fora.

A existência da película complicou ainda mais a ação de policiais despreparados, no auge da tensão e que atiram para matar. Paralelamente ao debate sobre a qualidade de nossas polícias, o uso do insulfilm em veículos está mais uma vez na berlinda. Há quem defenda que sua adoção como item de segurança deve ser repensada. “Ele prejudica a ação policial em blitze e seqüestros relâmpagos”, diz o oficial militar Julyver Modesto de Araújo, presidente da Associação Brasileira de Profissionais do Trânsito. “Não é possível identificar atitudes suspeitas.”

O presidente da Comissão de Segurança Pública da OAB-SP, o advogado Leandro Godines do Amaral, pensa diferente. Ele acredita que o acessório protege o motorista da ação de criminosos. “Tenho insulfilm no meu carro porque ele me deixa menos vulnerável”, diz. “E, em caso de seqüestro relâmpago, quem garante que a melhor coisa é a polícia intervir?”, questiona. Infelizmente, é difícil dizer. Na terça-feira 15, um carro revestido por película que levava seqüestrador e seqüestrado – o bandido havia rendido o administrador de empresas Luiz Carlos da Costa, 35 anos, e entrado em seu carro – chamou a atenção da polícia por conta da direção perigosa em Bonsucesso, zona norte do Rio. Iniciou-se um tiroteio, Costa foi atingido no tórax e no braço direito e morreu. Mais uma vez a polícia disse acreditar que atirava em bandidos.

FABRIZIA GRANATIERI/AG. ISTOÉ
João, três anos, morreu quando voltava de uma festa com o irmão e a mãe. Segundo a polícia, os vidros dos carros estavam mais escuros que o limite permitido por lei

O insulfilm virou acessório popular no Brasil. Há carros que, inclusive, saem da concessionária com ele. A Associação Brasileira dos Representantes e Aplicadores de Window Film (Abrawf) estima que pelo menos 15% da frota do País tenha os vidros escurecidos. Os dados mais recentes são de 2003. A moda começou por estética e depois, em 2002, se tornou um item de segurança. O uso da película, legal dentro de normas que especificam o grau de escurecimento, é controverso. Mas a necessidade de uma polícia bem treinada é unanimidade. “É conveniente colocar a culpa no insulfilm. Em qualquer país do mundo, onde a polícia é séria, o treinamento policial defende que é melhor deixar o bandido fugir a ferir o refém”, diz Nancy Cardia, coordenadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP. “O criminoso pode ser capturado em outra situação, mas a perda de uma vida é irreversível.”

 

23/7/2008


 
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