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''Foi desastroso trabalhar em Hollywood''
O cineasta de Paris, Texas lança seu primeiro filme europeu depois de 15 anos e diz por que não se encaixou no cinema americano

Por CLAUDIA JORDÃO

JAVIER LIZON/EPA/CORBIS

Trinta anos depois de desembarcar pela primeira vez em Hollywood, ávido por deixar sua marca na terra onde brotavam talentos como seu ídolo John Ford, o cineasta alemão Wim Wenders, 62 anos, faz o caminho de volta para casa. Nos últimos 15 anos, período em que morou e trabalhou nos Estados Unidos, ele não filmou uma cena em solo europeu. Agora, em seu mais recente filme, Palermo shooting (Fotografando Palermo, em tradução livre), ele quebra esse jejum. Para contar a história de um fotógrafo que reencontra a esperança, o diretor filmou em Palermo, na Itália, e em Düsseldorf, na Alemanha, a cidade natal do protagonista da história e do próprio Wenders. Ainda sem título em português, Palermo foi aplaudido no Festival de Cannes, na França, e deve estrear, no Brasil, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em outubro. Autor de obras-primas como Asas do desejo, Wenders reinventou a linguagem cinematográfica a partir dos anos 70. Chegou a estudar medicina e filosofia e descobriu sua paixão pela sétima arte quando tentava ganhar a vida como pintor e estagiava com um artista americano na França. Ao lado do trabalho, havia uma sala de cinema – nela, o cineasta assistia a cinco filmes por dia. Presidente do júri do próximo Festival de Cinema de Veneza, o cineasta alemão dará duas palestras no próximo encontro do Fronteiras Braskem do Pensamento, dia 18 de agosto, em Porto Alegre, e 20, em Salvador, quando abordará o tema “Cinema além das fronteiras”.

ISTOÉ – Palermo shooting foi exibido no Festival de Cinema de Cannes um dia antes do fim do festival. Como foi a correria de finalização?
Wim Wenders – Para te falar a verdade, quando o filme estava sendo exibido naquela noite no festival, eu percebi que havíamos corrido demais na finalização. Então, imediatamente depois de Cannes, eu voltei para a ilha de edição e continuei meu trabalho em cima do filme. No final, eu excluí outros 20 minutos.

ISTOÉ – O que o fez voltar a filmar na Europa 15 anos depois?
Wenders – Eu senti que havia dito tudo que tinha a dizer na América, pelo menos por enquanto, com Medo e obsessão (2004) e Estrela solitária (2005). Era hora de voltar para casa, para a Alemanha e a Europa.

ISTOÉ – Como avalia sua experiência como diretor nos Estados Unidos?
Wenders – Não posso dizer que minha experiência foi um desastre. Aprendi muita coisa e fiz muitos dos meus melhores filmes lá, como Paris, Texas (1984). Mas trabalhando como um funcionário contratado, dentro do sistema de estúdio, foi de fato desastroso para mim trabalhar em Hollywood. Aprendi da maneira mais difícil que não fui feito para esse tipo de trabalho. Eu preciso ser meu próprio mestre. Então depois dessa lição, passei a produzir todos os meus filmes na América. Preferi recusar grandes projetos e ficar com os pequenos orçamentos, desde que ninguém interferisse em minhas decisões e cortes finais. Paris, Texas foi o primeiro resultado dessa declaração de independência.

ISTOÉ – O que o deixa mais frustrado: não ter se encaixado em Hollywood ou Hollywood não ter feito bom uso de seu talento?
Wenders – Isso acaba dando na mesma. Aprendi que o trabalho de diretor pode ser muito diferente dependendo de quem está no comando. Para mim, funciona como na pintura ou na escrita: você é o autor e você segue seus instintos e chamados. Em Hollywood, o diretor trabalha em uma base diferente: seu “produto”, o filme, é pensado por outra pessoa e você tem que executar da melhor maneira possível. Alguns trabalhos fantásticos têm sido feitos, e continuam sendo feitos, dessa maneira, em Hollywood. Acontece que não sou bom nisso.

ISTOÉ – Como foi filmar em sua cidade natal pela primeira vez?
Wenders – Alguns cineastas fazem todos os seus filmes em casa, como Fellini ou Orzu. Para mim, sempre me pareceu mais difícil. E, sempre preferi filmar em qualquer lugar que não fosse em casa. Optei por fazer Asas do desejo somente após um longo tempo afastado de Berlim. Eu passei os primeiros seis anos da minha vida em Düsseldorf e depois voltei para estudar filosofia e pintura, mas nunca havia filmado uma única cena lá. Eu cresci a cem metros no rio Reno, e brinquei em sua margem todos os dias daqueles anos. Então, eu achava que não conseguiria enxergar aquele local novamente, como adulto e como diretor.

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23/7/2008


 
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