Matar o tempo. Esperar o tempo passar. Tempo é dinheiro. Dar tempo ao tempo. Como o tempo passa! A bem da verdade, passamos o tempo todo medindo o tempo. Desde a Antigüidade, o relógio assumiu essa função. Já teve relógio de sol, de água e de areia. Depois, apareceu o mecânico e as horas nunca mais foram as mesmas. Já foram anunciadas por todo tipo de bicho – o passarinho cuco é o mais popular – até chegar aos modelos digitais. Mas, hoje, parecem ter subvertido a função inicial: no mundo moderno, passaram a marcar nossa eterna falta de tempo. Será aberto no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), do Rio, na segunda-feira 28, uma interessante exposição sobre esse tema, O tempo sob medida, que vai mostrar 200 relógios estranhos, lindos, luxuosíssimos, curiosos.
O acervo virá da coleção da Fundação Medeiros e Almeida, com sede em Lisboa, e essa será a primeira vez que as preciosidades sairão do museu para serem expostas em outro lugar. O curador e artista plástico Luiz Geraldo Dolino diz que, assim como é feito em Portugal, será montado um ambiente completo também no CCBB. “Será uma sala com móveis, quadros, jarros, tapetes, louças, pratarias, etc. Estamos reconstruindo até as paredes. O visitante terá a nítida sensação da época”, conta ele. A intenção é mostrar como as pessoas conviviam com os relógios e proporcionar uma emoção maior do que quando as peças são simplesmente expostas para contemplação do público.
Mas este não é o único atrativo da mostra. Virá um teto inteiro de madeira com pintura que representa a passagem do tempo. “Vamos botar espelho no chão elevado para que a pessoa não precise ficar com o pescoço curvado para admirar a obra”, diz Dolino. Uma das peças mais luxuosas é o relógio de madeira rara, marfim, cristal e âmbar, concebido em 1700 e sem assinatura. A obra tem um conjunto de ampulheta com areia e, em cima, o medidor mecânico. “É um símbolo da transição de um sistema para o outro”, afirma o curador. Entre os mais importantes, há dois relógios de pé do inglês Thomas Tompion (1638- 1713), considerado “o Rolls-Royce da relojoaria”, como frisa Dolino. “Dizem que ele andava com uma marreta na maleta e, quando via um relógio falsificado com seu nome, destruía a peça e dava ao dono um vale para buscar um original em sua loja”, conta Dolino. Era a pirataria no século XVIII!
Uma série curiosa é a de relógios com mecanismo erótico. As peças do maquinário têm formato humano e, à medida que se movimentam, “é como se esses corpos estivessem transando”, explica o curador. Também atraem a atenção os relógios personalizados que o francês Abraham-Louis Breguet fazia para Napoleão, além da imagem de ouro da Virgem Maria, do século XIX, com coroa toda cravejada de diamantes. Para não conspurcar a imagem sacra, o relógio fica oculto no alto da cabeça, com as horas gravadas em ouro. “Botamos espelho no teto para que se possa vê-lo dentro da coroa”, diz Dolino. Entre os exóticos, destaca-se um despertador de Godfrie Poy (1718-1750), com um mecanismo que, na hora marcada, disparava uma quantidade de pólvora capaz de acender uma vela no candelabro que integra a peça. “É para a pessoa não acordar no escuro”, explica o curador. Uma coisa é certa: quem visitar essa exposição não vai perder tempo.
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1. RELÓGIO DE SOL PORTÁTIL
Do inglês Butterfield, em prata, com bússola e latitudes gravadas nas faces
2. PONTEIROS MÁGICOS
Modelo de bolso de diamantes, pérolas e ouro, do inglês William Anthony: jóia rara
3. RELÓGIO DE BOLSO
Suíço, em caixa de ouro com foto de dom Pedro V e assinado por Girod Gandy
4. DESPERTADOR “DE VELA”
Em prata e latão, tem dispositivo que dispara pólvora para acender a vela. De Godfrie Poy
5. “AMPULHETA”, DO ALEMÃO SCHÖDELOCK
Com 56 centímetros de altura, é um conjunto de três ampulhetas com diferentes tempos de escoamento
6. CRUCIFIXO CALVÁRIO
Alemão, de autor desconhecido, em bronze dourado. O mostrador se aloja em esfera acima da cruz
7. SECRETÁRIA COM ALÇADO
Mesa de ébano e bronze com gavetas laterais que só se abrem quando um botão é pressionado
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