O presidente da Associação dos Ativos e Inativos da Polícia Militar, Miguel Cordeiro, diz que "a PM do Rio vive de aparências, está falida e contaminada pela corrupção de boa parte de seus integrantes". Ele critica fortemente a política do governador Sérgio Cabral Filho: "Em vez de bravatas ou de culpar policiais isoladamente, o governador deveria ver de perto como nasce um policial militar, acompanhando o treinamento e a formação." Segundo Cordeiro, "o curso para policiais é insuficiente para que ele exerça sua função na proteção da sociedade". Além de a duração ser mínima, de apenas três meses, muitos policiais nem chegam a freqüentá-lo. Fazem apenas um treinamento rápido no quartel, recebem as armas e vão para as ruas. E não há reciclagem sobre abordagens e situações de crise. Segundo o presidente da Associação de Cabos e Soldados da PM, Vanderlei Ribeiro, um policial pode ficar até uma década sem nenhum curso de atualização.
Infelizmente, na ponta final dessa sucessão de erros estão, muitas vezes, inocentes como o menino João Roberto. Apesar da imensurável dor pela perda do filho, o taxista Paulo Roberto Barbosa Soares tem conseguido manter a lucidez ao analisar a tragédia que levou seu primogênito. "Quem disse que o Estado pode matar? Quem delegou poderes para o Estado matar? Aqui não tem pena de morte não, gente! Se fossem bandidos, os policiais teriam que prendê-los, como manda a lei. O Estado matou meu filhinho", gritou, no cemitério em que o menino foi sepultado, na terça-feira 8, vestindo a mesma fantasia do Homem-Aranha que usaria na festa de seu aniversário, dia 29 deste mês. A declaração coincide com a tese de especialistas em segurança: mortes como a de João Roberto são o efeito colateral mais perverso da política de enfrentamento adotada pelo governo de Sérgio Cabral para combater a violência. "O conflito se generalizou. A primeira coisa que o policial faz é puxar a arma. Então, a chance de ocorrer uma tragédia é grande", disse o sociólogo Rubem César Fernandes, do Movimento Viva Rio.
Sérgio Cabral refuta as acusações e diz que sua política "é para defender o cidadão e não para matar inocentes". O governador continua achando que está no caminho certo: "Não contemplamos e não passamos a mão na cabeça de policiais." A Coordenadoria de Comunicação Social da Secretaria de Estado enviou nota à ISTOÉ dizendo que "a chamada política de enfrentamento, cujo maior argumento é o aumento dos autos de resistência, na verdade é uma política de desarmamento dos bandidos". Segundo a nota, o Rio de Janeiro é o único estado do País em que a cultura dos bandidos é a de atacar a polícia. Em sintonia com o discurso exaustivamente proferido pelo governador, questiona: "Ficaremos de braços cruzados ou vamos desarmá- los (os bandidos)? Para agir, há um preço alto a se pagar, sem dúvida. Mas o que será do Rio se nada for feito?"
Essa tese, para muitos estudiosos da violência, é uma espécie de salvo-conduto para os assassinatos em série que têm acontecido. Para Antonio Carlos da Costa, presidente da ONG Rio da Paz, sedimentou-se a "mentalidade do atirar primeiro para depois identificar o alvo". E, assim, morrem jovens, crianças e adultos, independentemente de classe social. "Há relatos de execuções. Trata-se de uma atitude desprovida de discernimento. O enfrentamento não apresentou nenhuma redução significativa da criminalidade", disse. Todo o quadro remete aos versos da música de Geraldo Vandré, Para não dizer que não falei das flores, antigo hino contra a ditadura: "Soldados armados, amados ou não. Quase todos perdidos de armas na mão." Perdidos e assassinos.
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