"Qualquer um que não for o nome querido do mercado vai tomar pancada. A Dilma está apanhando de maneira injusta"
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ISTOÉ - O que exatamente?
Lessa - Está justificando o dr. Meirelles (Henrique Meirelles, presidente do Banco Central) a empurrar os juros para cima, para segurar a inflação pela taxa de câmbio. Ele só segura a inflação mundial empurrando para baixo a taxa de câmbio. Ao elevar os juros, ele consegue até segurar o câmbio, pois dá um prêmio colossal para os aplicadores estrangeiros em papéis brasileiros. Além disso, não aplica imposto sobre essas aplicações.
ISTOÉ - E assim atrai investimentos.
Lessa - O dinheiro entra. E a taxa de câmbio vai para baixo. Meirelles segura a inflação com a taxa de câmbio. Mas a custa de quê? De pagar uma taxa de juros proibitiva, que impede o governo de fazer política de saúde, política de educação, política de transportes e tudo mais.
ISTOÉ - A inflação já ultrapassou o chamado centro da meta. A situação pode se agravar?
Lessa - A inflação mundial já está produzindo intensos movimentos sociais de protesto na Europa. Eles estão importando petróleo a US$ 140 o barril e empurrando para cima os preços de tudo. Portanto, querer controlar a inflação por câmbio é suicídio nacional. Você premia a especulação de uma maneira desvairada. Quando empurra a taxa de câmbio para baixo, todos os indivíduos que trouxeram dólar antes e compraram títulos da dívida pública têm dois ganhos: um com a taxa real de juros louca que o Brasil paga e, outro, com a diferença entre o dólar que ele vendeu e o que ele compra, bem mais barato. O que o Meirelles faz é um suicídio nacional.
ISTOÉ - Há risco de desequilíbrio nas contas externas do País?
Lessa - O problema é o seguinte: o especulador internacional adora receber os juros que o Meirelles paga. Aliás, isso também vale para o especulador brasileiro, que vai para o Caribe e volta como internacional. Agora, há um medo, que é o de o balanço de pagamentos do País começar a ratear. Se a conta comercial ficar fraca, o especulador internacional vai recuar.
ISTOÉ - A economia brasileira, a seu ver, está frágil?
Lessa - Está estruturalmente muito frágil do ponto de vista macroeconômico de longo prazo. Acho também que está frágil do ponto de vista macropolítico de longo prazo. Pela seguinte razão: é caríssimo furar o pré-sal, exige desenvolvimento tecnológico e a manutenção de um patamar de preço internacional do petróleo altíssimo. Dominar os campos de présal pode se converter na melhor aplicação financeira possível para o Brasil. Mas, se extrair além de nossas necessidades, adoidado, o Brasil pode se tornar o Iraque do futuro. Por que os americanos estão no Oriente Médio? Por uma razão muito simples: os Estados Unidos não produzem nem 40% do petróleo que consomem. Imagine o Brasil dizer que tem um pré-sal colossal, que pode cobrir a brecha americana? Vamos virar de novo o quintal dos Estados Unidos. E não há pior coisa no mundo do que ser quintal deles.
ISTOÉ - Com relação à política de biocombustíveis, o Brasil está na posição certa?
Lessa - Sou inteiramente favorável. Se o presidente Lula comete alguns erros estratégicos brutais, como a política em relação ao petróleo, em outras coisas ele acerta em cheio. Está certíssimo na questão do biodiesel e do combustível renovável. O Brasil tem tudo para ser uma grande potência. Nós temos muita energia hidrelétrica e podemos ampliar muito a oferta. E é a mais renovável de todas. Temos sol quase todo o ano, temos solo e temos água. Então, podemos produzir comida e energia renovável. Temos petróleo no pré-sal e temos urânio. Temos a sexta reserva de urânio do mundo e mais da metade do território nacional ainda não foi pesquisada. Mas não se discute energia neste País, discutem-se juros. O que se há de fazer?
ISTOÉ - Mas Lula já disse que é preciso aguardar o resultado da política monetária, antes de tomar novas medidas.
Lessa - Não é verdade. Estão cortando despesas por todos os lados. As verbas prometidas não chegam. É uma quadratura do círculo. Como é possível compatibilizar o Meirelles empurrando os juros reais para cima e, ao mesmo tempo, expandir gastos? É impossível.
ISTOÉ - Não há uma política de investimentos, através do PAC?
Lessa - É preciso tomar cuidado. O PAC é a lista de projetos de infra-estrutura que o País devia ter começado a fazer em 2003, quando Lula assumiu. Sei disso porque ele me pediu a relação de projetos. Quando eu era presidente do BNDES, trabalhei três meses com uma equipe de 50 pessoas e fiz uma relação dos projetos prioritários. É quase a totalidade dos projetos que estão no PAC. Mas faltam ao PAC os projetos de infra-estrutura urbana, como metrô e trem. Fazer a economia crescer com o automóvel vendido a 90 prestações mensais congestiona ainda mais as cidades. O PAC é modesto em relação ao que o Brasil precisa e chegou muito atrasado.
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"Gosto do Serra, mas ele não se projetou. Qual é a sua posição sobre a Amazônia? E sobre a bioenergia?"
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ISTOÉ - O sr. ficou surpreso com as denúncias que envolveram recentemente financiamentos do BNDES?
Lessa - Duvido que essas coisas tenham acontecido. A estrutura de decisão e de operações do banco tem uma quantidade muito grande de filtros. Para haver corrupção, tem de corromper de cima a baixo. Por exemplo, todo o pleito passa pela comissão de prioridades, que é formada por todos os superintendentes do banco. E a decisão final é da presidência do banco. Vai ver que tem firma de consultoria vendendo o que não tem para entregar.
ISTOÉ - Esse cenário de denúncias e de repique inflacionário vai ter reflexo nas eleições deste ano?
Lessa - Eu acho que a despolitização avançou no Brasil numa extensão inacreditável. O povo não confia no Congresso e nos políticos. Curiosamente, isso aumenta o prestígio do Lula. Ele é o grande pai. Como acredita que os políticos são um poder inútil, quando não corrupto, o povo tende a buscar o pai universal.
ISTOÉ - O que poderá acontecer na eleição de 2010, que pela primeira vez não terá o presidente Lula como candidato?
Lessa - Pode acontecer qualquer coisa. Acho que o PT vai apresentar a Dilma (Rousseff, da Casa Civil) como candidata à Presidência. E o Palocci (ex-ministro da Fazenda) vai tentar se mexer para ser candidato, se o Supremo Tribunal Federal absolvê-lo.
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