
SENSIBILIDADE À FLOR DA PELE
Risonho, esperto e muito carismático. Assim é João Pedro Cerqueira, de um ano e 11 meses. Mas, por ser portador de fibrose cística, a sua rotina é muito diferente daquela das crianças de sua idade. Ele precisa de inalações diárias para evitar infeções pulmonares. Faz fisioterapia regularmente. Além disso, a cada mamadeira (enriquecida com azeite ou óleo de canola) tem de ingerir enzimas, já que o organismo não consegue absorver nutrientes. O verão e o inverno interferem em sua saúde. “No calor ele elimina sódio e potássio pelo suor e pode se desidratar em minutos. No frio o risco são as infecções”, diz a avó Edna de Oliveira. A torcida é para que, no futuro, as células embrionárias acabem com esse sofrimento.
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João Pedro, Júlia, Marcos, Ingrid, Claudecir, Denis, Anderson e Kathy. Para esses brasileiros e também para outros milhares de cidadãos, a semana passada foi inesquecível. Ela ficará marcada como o tempo em que a esperança renasceu com força dentro de cada um. Todos são portadores de alguma doença que, no futuro, poderá ser tratada, e quem sabe curada, com terapias realizadas a partir de células-tronco embrionárias – estruturas versáteis capazes de gerar qualquer tecido do corpo. Com a liberação definitiva na quintafeira 29, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), das pesquisas com essas células, a expectativa é que os estudos proliferem pelo País.
Não foi uma vitória fácil. Após a alegria experimentada em março de 2005 quando a Lei de Biossegurança foi aprovada pelo Congresso Nacional permitindo a realização dos estudos, os pacientes sofreram um revés. O então procurador-geral da República, Cláudio Fonteles, entrou no STF com uma ação pedindo que a autorização para as pesquisas fosse considerada inconstitucional. O argumento era que o uso de embriões feria o direito à vida, garantido pela Constituição. O procurador tocou em uma questão tão importante como polêmica: afinal, quando a vida começa? De acordo com a Igreja Católica, por exemplo, há vida já em um embrião. No entendimento da ciência, não. No julgamento, os juízes do STF ficaram ao lado da razão. Por seis votos a cinco, deram o aval que faltava. Eles liberaram o uso de células retiradas de embriões congelados há pelo menos três anos em clínicas de reprodução humana, desde que haja o consentimento dos pais. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária está organizando um cadastro dos centros onde estão embriões com essas características.
Se para os pacientes a decisão do STF dá novo fôlego para continuarem lutando contra patologias quase sempre graves, para a medicina brasileira o sinal verde significou um marco histórico. A permissão de realização de pesquisas com células-tronco embrionárias nos coloca no Primeiro Mundo da ciência pelo menos nessa área do conhecimento, ao lado de países como Japão, Estados Unidos e Israel. A partir de agora, os pesquisadores brasileiros podem se dedicar mais diretamente aos estudos, condição que estava prejudicada até então.
DURA ROTINA
A menina dessa foto tem um sonho: quando crescer, quer ser estilista ou exercer outras funções que se relacionem com moda, artes, desenho. Na última semana, Júlia Pepinelli Dirani, dez anos, ganhou mais uma ajuda para realizar seu desejo. Com a aprovação das pesquisas com células embrionárias, cresceu a possibilidade de que sua qualidade de vida melhore muito no futuro. Ela tem fibrose cística, uma das doenças que poderão ser tratadas com terapias criadas a partir dessas células. Hoje, ela obedece a uma difícil rotina de controle da doença: acorda diariamente às cinco da manhã para fazer inalação, tem de tomar enzimas quando se alimenta e se submete a duas sessões de fisioterapia respiratória por dia. |
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| OPOSTOS No STF, os ministros Ayres de Brito e Ellen Gracie votaram a favor dos estudos. Já Carlos Alberto Direito foi contrário às pesquisas |
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