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LEONARDO ATTUCH
O cofre, a cadeia e o dossiê
Leonardo Attuch attuch@istoe.com.br

Em 1960, João Gilberto lançou um disco que resumiu seu ideal de Brasil em três palavras: o amor, o sorriso e a flor. Agora, no momento em que se comemoram 50 anos da bossa nova, os instrumentos tocados pela banda que governa o País são também apenas três: o cofre, a cadeia e o dossiê. As chaves do cofre, naturalmente, estão nas mãos da patota mais próxima, os petistas de carteirinha. A cadeia e o dossiê servem para os inimigos, mas principalmente para os aliados que se tornam caros demais e, portanto, incômodos.

Exemplos desse método fascista de governar têm se repetido com freqüência – e deixado seqüelas. Em 2005, a crise do mensalão só veio à tona porque o Palácio do Planalto decidiu implodir um aliado inconveniente: o deputado Roberto Jefferson, do PTB. No ano passado, a CPMF foi para o brejo porque algumas lideranças petistas, de olho no comando do setor elétrico, montaram operações policiais contra os caciques do PMDB. Entre eles, Renan Calheiros e José Sarney. Desta vez, o alvo da central oficial de escândalos é o chamado bloquinho de partidos liderado por Paulo Pereira da Silva, do PDT, que reúne 79 deputados, apenas três a menos do que o PT. E o passo seguinte às denúncias, naturalmente, será a pressão pela retomada dos cargos federais entregues a essa turma.

De tanto devorar seus próprios aliados, o PT acabará comido por eles num delicioso banquete

Um dos integrantes do “bloquinho”, o deputado Aldo Rebelo, que é pré-candidato à Prefeitura de São Paulo pelo PCdoB, enxergou o fenômeno. Disse que o PT é um partido que parece querer “devorar seus aliados”. Usando uma referência da mitologia grega, comparou o Partido dos Trabalhadores ao deus Cronos, que, por medo de ser destronado, devorava todos os filhos que nasciam.

O ritual desses festins diabólicos é também curioso. Primeiro, a polícia política e o batalhão de inteligência do governo elaboram relatórios e dossiês, que abastecem a imprensa investigativa. Depois, os alvos das operações se dizem vítimas de conspirações palacianas e, em geral, apontam o dedo para a Casa Civil. Por último, buscam o derradeiro abraço do presidente Lula, que finge não ter nada a ver com nada. É uma lógica perversa, que vai deixando mortos pelo caminho e criando a sucessão de escândalos que domina o noticiário político. Mas é também um jeito perigoso de governar. De tanto devorar seus aliados, o PT acabará sendo comido por eles, num longo e delicioso banquete.


28/5/2008


 
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