Há duas semanas, no depoimento da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, à Comissão de Infra-Estrutura do Senado, o senador José Agripino Maia, líder do DEM, fez uma pergunta que permitiu à ministra dominar a cena e acuar a oposição. Era uma chance para que os oposicionistas pressionassem a ministra a dar respostas sobre o mais recente escândalo que incomoda o governo: o vazamento de informações sobre gastos do governo Fernando Henrique. Ao ser procurado por ISTOÉ para falar das dificuldades que o DEM enfrenta no combate ao governo Lula, Agripino sentiu que seria a oportunidade de se redimir do erro que cometeu. Cuidadosamente, fez questão de redigir em duas folhas de bloco com uma lapiseira fina o pedido de desculpas à ministra da Casa Civil que se seguiu a uma pergunta sobre o episódio. "Aproveito esta entrevista à ISTOÉ para pedir desculpas à ministra Dilma. Reconheço que cometi um erro", afirmou Agripino.
Com relação ao programa do DEM de livre iniciativa e de diminuição do Estado brasileiro, Agripino reconhece que o Estado paternalista ainda faz sucesso para grande parte da sociedade que, beneficiada pelos programas do governo e pela estabilidade econômica, vive melhor e eleva a popularidade de Lula. Enquanto isso, o DEM corre o risco de eleger pouquíssimos prefeitos nas próximas eleições nas capitais e nas grandes cidades. Aos 63 anos, Agripino, que já foi prefeito de Natal e governador do Rio Grande do Norte, afirma que seu partido sofre com esse fosso, mas acha que o DEM deve insistir nas suas posições, certo de que no futuro essa nitidez ideológica lhe trará dividendos. "É verdade, às vezes o reconhecimento demora, mas é preciso insistir", prega ele.
ISTOÉ - A oposição hoje tem um campo de atuação bastante estreito, imprensada pela popularidade de Lula. Isso permite ao presidente afirmar que vai fazer seu sucessor. É correta essa avaliação?
José Agripino Maia - Eu acho que cada vez que o presidente cresce na popularidade, ele começa a dizer coisas que um estadista não diz. O presidente, que está vivendo um momento de popularidade alta em decorrência do desempenho da economia, está cometendo um pecado capital. Ele teria condições tranqüilamente de consolidar a reforma política, que está parada na Câmara por falta de vontade política do governo. As reformas sindical e trabalhista não passaram da distribuição de R$ 100 milhões às centrais sindicais. A ampliação da reforma da Previdência não é sequer falada. Para fazer reformas, você tem que contrariar interesses. Para contrariar interesses, você precisa ter força política, que o presidente neste momento tem e não está sabendo usar em benefício do futuro do País.
ISTOÉ - As críticas que o sr. faz não encontram eco suficiente na sociedade. O que está faltando à oposição?
Agripino - O processo de amadurecimento político de qualquer país se faz pela compreensão das idéias dos partidos. O Brasil - e esse é um defeito que temos - habituou-se a prestigiar pessoas, e não partidos. O presidente da República, com a sucessiva edição de medidas provisórias, entope a pauta do Congresso, e o Congresso, com as suas virtudes e os seus defeitos, tem perdido prestígio junto à comunidade. Poucos partidos políticos hoje têm nitidez de idéias. O meu partido, pela sua formação programática, é pelo fortalecimento da iniciativa privada, contra o gigantismo do Estado e é por natureza contra o aumento de carga tributária. Atribui-se ao presidente os bons resultados da economia, mas esse desempenho se deve em grande parte a fatores externos.
ISTOÉ - Mas o governo não tem responsabilidade nenhuma nisso?
Agripino - O Brasil hoje é refém do preço das commodities. Temos a inflação sob controle pelo que se fez no Plano Real, que vem de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, e pela responsabilidade fiscal praticada por Henrique Meirelles, pelo ex-ministro Antônio Palocci, que Lula continua a avalizar. Isso produziu inflação sob controle e receitas suficientes que permitem que os programas sociais sejam feitos, promovendo bem-estar para as pessoas, com nível de emprego crescente. Isso dá às pessoas renda e, com a inflação baixa, condição para que elas comprem o que nunca puderam comprar. Então, você tem um nível de satisfação grande.
ISTOÉ - Esse raciocínio caberia na boca de um líder de um partido governista...
Agripino - Mas aí é que vem o erro. E se o preço das commodities, que estão produzindo esse resultado, baixar? A economia do Brasil, pela responsabilidade fiscal e pela contenção da inflação, atingiu um patamar de boa qualidade. O crescimento acima da média - média para o Brasil, não em relação aos países emergentes ou da América do Sul - se deve ao preço das commodities. Na agricultura e nos minérios, estamos exportando muito, gerando muito emprego e distribuindo muita renda. Agora, estamos perdendo o bonde da história, porque poderíamos estar num nível de competitividade muito maior. O Brasil adquiriu os vícios do governo Lula.
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| "O PP da Espanha, com [José María] Aznar, produziu enorme crescimento e hoje tem uma aceitação eleitoral muito forte" |
ISTOÉ - Que vícios?
Agripino - Gasto público de má qualidade, inchaço do Estado, aparelhamento do Estado com quadros de qualidade duvidosa, um vício que ficou permanente e que produzirá resultados negativos para o futuro.
ISTOÉ - O DEM fez mudanças para ter maior nitidez ideológica. Mas perdeu competitividade eleitoral. Não foi um erro de estratégia?
Agripino - Os partidos políticos têm um papel a desempenhar na sociedade. Cada um tem de ter um nicho de pensamento. Nós estamos desempenhando um papel, na minha opinião, histórico.
ISTOÉ - Mas pagam um preço eleitoral alto, perdem quadros e votos.
Agripino - Mas, se pegarmos a história do mundo, veremos que quem teve a coragem de representar idéias com firmeza, terminou compreendido. Assim foi na Espanha. Assim foi na Alemanha. O Partido Popular da Espanha, com [José María] Aznar, produziu enorme crescimento e hoje tem aceitação eleitoral muimuito forte. Você tem que ter a coragem para firmar as suas idéias a para vê-las compreendidas pela sociedade. É verdade, às vezes esse reconhecimento demora. Mas hoje, quando se fala em um partido político que luta contra aumento de imposto, a primeira ilação do cidadão é com o Democratas.
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