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O Brasil dos imigrantes
Os sonhos e a realidade de estrangeiros que viram no País a oportunidade de uma vida melhor

Por JONAS FURTADO E ANDRÉ PORTO/AGÊNCIA ISTOÉ (FOTOS)

Gabino Avalos e Elsa Condori são bolivianos, trabalham com confecção. O analista de sistemas Lucas Cho veio da Coréia do Sul com a esposa e as três filhas. Mauricio Canero, advogado, é argentino. A empresária Falilat Toyin e a estudante Lyabo Sadiat Lawal, nigerianas. Cada um com sua história, deixaram os países em que nasceram para viver no Brasil, onde compartilham os mesmos sonhos: prosperidade financeira e segurança para a família. Com sua vocação cosmopolita e o dinâmico mercado de trabalho, São Paulo é onde essa nova imigração se faz mais notável. Nas ruas da cidade, especialmente as do centro, latino-americanos, africanos e asiáticos imprimem suas marcas culturais e econômicas e incorporam muito do estilo de vida local. “Os fluxos históricos – de italianos, portugueses, alemães, espanhóis e japoneses – foram bem mais numerosos e trouxeram elementos importantes para a cultura brasileira”, diz Rosana Baeninger, pesquisadora do Núcleo de Estudos de População (Nepo) da Unicamp, sobre os povos europeus que foram incentivados a migrar para o Brasil após a abolição da escravatura. “Os fluxos atuais, em menores volumes, têm importância especial no contexto local, contribuindo para uma reconstrução social de espaços, seja pela mistura de diferentes culturas, seja pelas demandas sociais formadas por esses grupos.”

Os números da Polícia Federal (PF) indicam o registro ativo de 877.286 estrangeiros no País. Não há dados seguros sobre a quantidade de imigrantes em situação ilegal, mas é impossível negar a presença, por exemplo, dos bolivianos em quantidade muito maior do que os cerca de 35 mil registrados na PF. O Centro Pastoral do Migrante (CPM), que presta serviços aos imigrantes na capital paulista, diz que, só em São Paulo, eles são seguramente mais de 100 mil. O aumento das barreiras nos países europeus e nos Estados Unidos e o vigor da economia brasileira em comparação com os vizinhos sul-americanos são fatores que contribuem para colocar São Paulo em evidência nas novas configurações migratórias estabelecidas após as mudanças sociais e econômicas das décadas de 80 e 90. Em 2007, 44.954 estrangeiros tiveram suas entradas no País registradas pelo Sistema Nacional de Cadastramento e Registro de Estrangeiros (Sincre).

“A globalização transita mercadorias e capitais, mas transita gente também. Uma das características desse processo é o fomento da informalidade”, diz Rosana Gaeta, da Secretaria de Participação e Parceria do Município de São Paulo, responsável por projetos cujo objetivo é integrar os imigrantes, como as aulas de português a serem oferecidas a partir de abril no Cibernarium, na avenida São João, ponto de encontro de estrangeiros recém-chegados das mais diferentes partes da América do Sul e África. Segundo Marcilândia de Fátima Araújo, do Ministério da Justiça, “a maioria dos imigrantes vem para trabalhos de base, secundários. A mão-de-obra qualificada permanece temporariamente”.

Mas os levantamentos do Ministério do Trabalho mostram que cresce o número de profissionais qualificados interessados em ficar no País. Em 2007, 2.615 estrangeiros receberam autorização para residir e trabalhar permanentemente no País. É mais do que o dobro das autorizações cedidas em 2004 (1.284) e representa um aumento de 27% em relação a 2006 (2.055). Os números de quem conseguiu visto de trabalho temporário também aumentaram: foram 26.873, contra 23.385 em 2006. Do total de 29.448 autorizações de trabalho concedidas a estrangeiros no ano passado, 17.126 foram para pessoas com ensino superior completo ou curso técnico equivalente. “Esse aumento ocorre pelo maior aporte de capital estrangeiro no País”, afirma Paulo Sérgio de Almeida, presidente do Conselho Nacional de Imigração e coordenador de Imigração do Ministério de Trabalho e Emprego. “Outro fator é a maior aquisição de bens de capital: as empresas estão aproveitando o câmbio favorável para importar máquinas. Isso demanda a vinda de especialistas para implantar e dar suporte a essa maquinaria.”

Refugiados – Aproximadamente 3.700 refugiados reconhecidos, de 69 diferentes nacionalidades, vivem no Brasil – 80% deles vêm da África, a maioria de Angola. Previsto nas legislações internacional e nacional, o refúgio é admitido em caso de deslocamento forçado causado por perseguição devido à raça, religião, nacionalidade ou opção política. Luiz Fernando Godinho, porta-voz do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) no Brasil, diz que a grande diferença entre imigrante e refugiado é que o segundo não escolhe seu destino. “O refúgio não é algo planejado. O imigrante tem sempre a opção de voltar para casa; já o refugiado não tem a opção de voltar para seu país. Mais do que melhores condições, ele busca salvar a própria vida”, afirma Godinho.

C O R E A N O S
ESTIMATIVA DA EMBAIXADA:
50 mil, entre naturais e descendentes, 40 mil deles em São Paulo
REGISTRADOS NA PF: 16.765
ATIVIDADE ECONÔMICA PRINCIPAL: são donos de oficinas de costura e lojas de roupas

Coreanos querem mais qualidade de vida
Ao completar 40 anos, em 2006, o coreano Lucas Cho viu-se numa encruzilhada. Profissional de tecnologia da informação, área na qual a Coréia do Sul é líder mundial, era consultor de uma grande companhia em Seul. A acirrada concorrência e o ritmo acelerado do cotidiano na terra natal, porém, limitavam o contato com a família. Pali pali (cuja tradução literal é “rápido, rápido”) é o nome dado pelos coreanos à cultura de não deixar para o próximo minuto o que se pode fazer agora. Aderir ao culto do pali pali é a única forma de ascender na competitiva sociedade coreana.

Casado com Bak Gong, Cho queria mais qualidade de vida para as filhas, Ha-Min, 6 anos, Yoo-Min, 5, e Soo-Min, 3. Em dezembro de 2006, esteve em São Paulo para analisar as possibilidades de trabalho. No mês seguinte, a família chegou para ficar. “Aqui as pessoas são mais generosas e tranqüilas. Acho que tem a ver com o tamanho e a abundância do Brasil. Na Coréia, nos falta espaço”, afirma Cho, para quem a América do Sul é familiar. Na década de 80, ele viveu por sete anos na Argentina, para onde os pais imigraram para trabalhar no ramo de confecções.

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30/4/2008


 
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