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A nova Cleópatra
Por que a descoberta da estátua da rainha Tiy, avó do famoso Tutancâmon, vai revolucionar a história do Egito antigo

Por LUCIANA SGARBI

AFP/GETTY IMAGES
Arqueólogos encontraram a estátua de Tiy, com 3,62 metros de altura, soterrada ao sul do Egito.
ADORADA Tratada como divindade, a rainha Tiy teve um templo construído com a sua imagem

Cerca de mil anos antes de Cristo existiu um Egito que estava enterrado até a semana passada. E, nesse tempo, ele foi dominado pelos ideais de uma rainha que os arqueólogos acreditam ter sido mais bonita e poderosa do que a vaidosa Cleópatra, que espalhou sua sedução pelo Mediterrâneo e causou cobiça, disputas e guerras há menos de quatro décadas da era cristã. Tanto Cleópatra quanto as famosas pirâmides foram durante décadas o símbolo mais vivo do Egito antigo. Agora, equipes de pesquisadores europeus e americanos da Universidade Johns Hopkins desenterraram peças que mudarão o rumo da história egípcia, apresentando novos personagens e costumes marcados por uma poderosa dama chamada Tiy, que reinou entre 1427 e 1379 a.C. Esse passado está no sítio arqueológico dos colossos de Menmon, ao sul do Egito. A sua varredura trouxe à luz a imponente estátua da rainha Tiy, mulher do faraó da 18ª dinastia Amenotep III, além de duas esfinges representando o casal real e dez estátuas de granito negro de Sekhmet, a divindade com cabeça de leão. “Essas novas peças mudarão totalmente a percepção que temos desse lugar”, declarou Faruq Hosni, ministro da Cultura do Egito. Mais: Hosni falou, entusiasticamente, do Grande Museu Egípcio, um colossal projeto orçado em US$ 500 milhões que está sendo construído como extensão do famoso planalto das pirâmides de Gizé – ele será aberto ao público em outubro de 2011 e dará grande destaque, justamente, à rainha Tiy. Nesse museu serão expostas 100 mil peças arqueológicas do patrimônio faraônico, e a localização das novas estátuas incentivou definitivamente o governo a mudar de fato, e o quanto antes, o antigo Museu Egípcio erguido em 1902 no Cairo. Selar a mudança de um patrimônio nacional é para poucos, e somente uma mulher como Tiy poderia estar por trás dessa revolução na história cultural do país.

MARWAN NAAMANI/AFP/GETTY IMAGES
O ministro da Cultura, Faruq Hosni, comemora

Ao contrário de todas as rainhas de que se tem conhecimento na civilização egípcia, Tiy não era de linhagem real e, segundo os historiadores, a simplicidade a fez carismática e extremamente popular. De origem asiática e filha de Yuya, guerreiro que comandava carruagens de guerra, casou-se com Amenotep III quando tinha entre sete e oito anos e teve com o marido uma forte relação, sobretudo de admiração e amizade. Foi inúmeras vezes homenageada com colossais esculturas que demonstravam o seu poder dentro e fora do palácio. “Em muitas peças Tiy era representada em condições iguais às de seu esposo, e essa honraria não coube a nenhuma outra rainha egípcia”, diz Hurig Suruzian, diretora da equipe de arqueólogos. A sua influência política também era grande e ela tomava decisões por conta própria: “Tiy era uma autêntica governante na sombra.” O império de Amenotep III e Tiy foi marcado pela diplomacia, por casamentos reais e perspicácia, e ambos conquistaram o povo pelo caminho da prosperidade, com programas de construções – portos, canais e o grande templo funerário em Tebas, o maior do Egito.

Tiy, matriarca da família Amarna, morreu no ano de 1.338 antes de Cristo. Teve seis filhos que deram continuidade a sua tradição, e entre eles conta-se Akhenaton, que se tornaria um dos mais poderosos líderes daqueles tempos casando-se com Nefertiti e tendo Tutancâmon como filho – isso mesmo, o famoso e tão falado Tutancâmon era neto de Tiy. Vale observar que a família continuou adorando- a após a sua morte e carregou seu nome para séculos futuros através de novas estátuas e monumentos, como se ela sempre trouxesse força e progresso. A múmia de Tiy apresenta um cacho de cabelo castanho- avermelhado, reacendendo os encantos e mistérios dessa mulher. “Desenterramos nossa própria origem e agora iremos expô-la a céu aberto. Tenho certeza de que o mundo ficará fascinado com essa nova personagem”, diz o ministro Hosni.

SOBERANIA Na entrada do museu, a imponente estátua de 15 metros de altura do rei Amenotep III e a rainha Tiy


28/3/2008


 
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