Algo parecido aconteceu com Talarico. Há dez anos, ele convocou uma reunião em casa para discutir sua mudança para São Paulo por motivos profissionais. Desde então, assistiu à ascensão de seu prestígio na empresa, a segunda maior do mundo no ramo de alimentos, e ao declínio de seu terceiro casamento, que se desfez após 16 anos de união. "Paguei um preço altíssimo: tenho Ph.D. em solidão", afirma ele, que, sozinho na capital paulista, morou em flat, apartamento alugado e, agora, constrói uma casa. "Tomei decisões - certas ou erradas - objetivando dar tranqüilidade financeira à minha família, mas o relacionamento ficou fragilizado."
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TACADA Jacobson reconhece que se dedicou pouco à família |
Nome: José Jacobson Neto, 54 anos
Cargo: Vice-presidente da GP - Guarda Patrimonial -, maior grupo de segurança privada do Brasil
Família: Um casamento, pai de Caio, 26 anos, Rafael, 24, e Fábio, 23
"Sinto, hoje, o que meus filhos sentiram lá trás: carência afetiva"
Dois anos atrás, ele procurou uma analista. Queria diminuir a angústia afetiva e estar pronto para responder às ansiedades dos filhos. Durante um ano no divã, aprendeu que, no ambiente familiar, a verdade vem antes do que é o certo ou o errado. "Um dia meu filho Thomaz perguntou: 'Você já traiu a minha mãe?' Eu respondi que sim. A honestidade com as crianças nos aproxima", diz Talarico.
Presidente da Avis, uma das maiores empresas locadoras de automóveis do mundo e que possui, no Brasil, 100 lojas, Afonso Celso Santos lança mão de suas viagens de negócios para ter a família por perto. "O que mais une a família é viagem ao Exterior. Minha esposa viaja comigo quase 100% das vezes. E meus filhos, sempre que a agenda escolar permite", diz o executivo de 50 anos e pai de três filhos, de 15, dez e nove anos. "Vivi um déficit de atenção à família. Aí, amadureci e passei a dar importância para as coisas que são realmente relevantes e procuro trazer a família para perto."
A jornalista Soraia Lopes Corona, esposa do presidente da Bio Ritmo, a maior rede de academias do País, reconhece que o marido, Edgar Corona, está mais presente em casa depois que as filhas nasceram. "Ele tenta todos os dias administrar melhor o tempo e aproveitar melhor a família", afirma Soraia, mãe das gêmeas Maria Clara e Maria Paula, de 18 meses. Edgar, 51 anos, encurtou o expediente em duas horas e diz que as meninas determinaram sua agenda. "Fico até mais tarde no trabalho para, no dia seguinte, ficar com as gêmeas na parte da manhã em casa", conta ele.
Sair da sinuca entre a conquista de prestígio e sucesso profissionais e a dedicação à família não é fácil. Por um motivo simples: falta de tempo. Hoje, o mundo wireless, o iPhone, o BlackBerry, o laptop e toda a parafernália tecnológica plugam com um clique o executivo em qualquer momento do dia, da noite ou da madrugada em qualquer lugar do mundo. De acordo com o levantamento da professora Betania, o executivo brasileiro trabalha em média 13 horas por dia - duas a mais do que o americano e três, do europeu.
Somente no início do século passado, nos anos 20, quando os homens permaneciam enfurnados dentro das fábricas durante o processo de industrialização, trabalhou-se tanto. E no Brasil - diferentemente de outros países, onde os serviços de saúde, transporte e educação podem ser confiados ao Estado e a previdência pública confere certo sossego - o dirigente de uma corporação sabe que a bonança, mais do que o sucesso financeiro, só virá de seu próprio esforço e após muita dedicação.
O presidente da Avis trabalha 14 horas por dia, duas a mais do que 15 anos atrás, quando o primeiro de seus três filhos nasceu. "Sempre tive a consciência pesada por não ver a minha família como eu gostaria", diz Afonso Celso. Em sua primeira viagem à Disney, o executivo conta que se encontrava mais estressado do que curtindo a viagem, já que estava nos Estados Unidos também para negociar a compra da Avis. Na ocasião, seu primogênito, Victor, então com três anos, encantou-se pela Cinderela. "Um dia, nervoso, eu queria ir embora de um lugar e o Victor queria ver a Cinderela. Eu o puxei pelo braço, e ele chorou, chorou. Ele nem deve lembrar disso, mas ainda hoje dói em mim."
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