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GUSTAVO KUERTEN
Por que Guga não desiste
O tenista diz que joga porque ainda sente prazer nas quadras e fala sobre a máfia do tênis, a morte do irmão e casamento

Por RODRIGO CARDOSO

WELLINGTON CERQUEIRA/AG. ISTOÉ"Ângela, você vai ficar até mais tarde? Preciso de uma assinatura do doutor Gustavo." Doutor Gustavo é Gustavo Kuerten, que toca em Florianópolis, junto com a mãe, Alice, o Instituto Guga Kuerten. Faz três anos que o desempenho do doutor Gustavo - que já ajudou 25 mil pessoas com projetos esportivos e ações em prol da melhoria da qualidade de vida de deficientes - é bem melhor do que o do atleta Guga. O maior tenista brasileiro de todos os tempos, ex-número 1 do mundo, não joga uma partida de simples há dez meses. Aos 31 anos, ele já pensa no futuro como doutor Gustavo. Além do trabalho social, fala em estudar matemática e atuar em projetos para o desenvolvimento do tênis brasileiro. O futuro depende de sua atuação nas quadras em 2008, "um ano de respostas", como diz. Com a morte do irmão, Guilherme, que nasceu com paralisia cerebral e era o xodó dos Kuerten, não se sabe como ficará sua motivação. Guga, que não dá entrevistas pelo telefone há dez anos, tem um patrimônio estimado em US$ 50 milhões, Por RODRIGO CARDOSO desistiu de ser o número 1 e nem sequer projeta conquistas de campeonatos. Seu objetivo é competir enquanto tiver prazer e quem sabe, num lampejo do grande tenista que foi, conseguir levantar o 21º troféu.

ISTOÉ - A máfia do tênis, que paga para jogadores entregarem partidas, é novidade para você?
Gustavo Kuerten - Escuto isso desde que começava, em meados dos anos 90. Vi a declaração do (Andy) Murray (tenista que disse que todos sabem da existência de partidas arranjadas). Não a acho a mais inteligente, mas pintaramno como o mentiroso da história, o que também não está certo. Os jogadores escutam isso no dia-adia. Os caras (apostadores) foram se aproximando, viram que estava cada vez mais fácil e foram se aproveitando.

ISTOÉ - Se você recebesse uma proposta dessas, qual seria sua reação?
Guga - Eu denunciaria no dia seguinte. Não sei por que quem recebeu não falou. Talvez tenha falado e ninguém deu ouvidos. É importante deixar claro que não é só o jogador que sabe disso. Deixar só nas costas do tenista não está certo. A ATP fez algumas coisas para coibir, mas não foi a fundo. Teve época em que ela proibiu os jogadores de apostarem nos jogos de tênis, só que não deu muita importância ao problema.

ISTOÉ - O tenista italiano Felippo Volandri é suspeito de entregar um jogo a você, este ano. Ele fez corpo mole em troca de dinheiro ou estava contundido?
Guga - Não vou entrar no mérito. Senti que ele não estava na melhor condição física, não conseguia bater de esquerda. Eu o vi treinando e achei que não fosse entrar na quadra, porque estava bastante machucado. É dever da associação apurar. Um cara que vende um jogo tem de ser banido do esporte.

ISTOÉ - Qual a importância de seu irmão Guilherme, que morreu há duas semanas, em sua vida?
Guga - O Gui foi uma inspiração e demonstrou uma superação enorme. Ele trazia união, força extra para a família. Antes, em Floripa, existia muito preconceito em relação a pessoas com deficiência e hoje é diferente. Tenho certeza de que o Gui ajudou a mudar isso, a romper barreiras, porque a gente sempre o levava aos lugares. Era um cara que, sem conseguir falar, ensinou tanto. Ele conseguia contagiar qualquer ambiente com o sorriso e a alegria. Apesar dessa tristeza que sentimos agora, o Gui teve uma trajetória de sucesso e conseguiu chegar muito mais longe do que imaginávamos, muito também por mérito da minha mãe.

ISTOÉ - Como é sua rotina de trabalho?
Guga - Minha atuação é cada vez mais vinculada ao instituto. Em sete anos, já investimos cerca de R$ 7 milhões. Temos um programa que vai abranger o Estado todo de Santa Catarina, cidade por cidade. Dividimos o Estado em seis partes. Cada ano, a gente aprova e financia 20 projetos dentro de cada região. Antes, eram outras as prioridades. Claro, o tênis ainda ocupa muito espaço, principalmente como comprometimento. Por mais que eu jogue menos, preciso me dedicar ao esporte. Mas sinto a necessidade de me informar mais, estar presente nas decisões (do instituto). E, independentemente disso, quero evoluir em outras áreas. Não quero ficar vivendo do que eu fiz no tênis.

ISTOÉ - Qual seu plano para o futuro?
Guga - Enquanto estiver no circuito, não sei. Tenho vontade de voltar a estudar, gosto de matemática e física. Quanto ao tênis, há uma lacuna quanto ao desenvolvimento do esporte. Tivemos o número 1 do mundo e, passados cinco anos do boom, o tênis está pior do que em 1995, quando eu apareci. Isso me deixa indignado e me atrai como desafio. Dá para eu ajudar no desenvolvimento do tênis. Estou pensando, discutindo projetos. Agora, onde e de que forma posso ser mais eficaz, não sei. Mas não vou conseguir fazer o papel do (treinador) Larri (Passos), que está todo dia ali, motivado.

ISTOÉ - O que precisa para surgir um novo Guga?
Guga - O tenista não precisa ser um gênio. Quem me olhava com 16 anos, falaria: "Esse guri tá aí, pode ser profissional." Para chegar lá, além de uma vontade pessoal gigante, há um monte de fatores. Tem jogadores brasileiros que se acomodam e não pensam em dar tudo para ser o campeão, como acontece com caras do Exterior. Pensam: "Sou número 80, tenho recompensa financeira, jogo um grand slam aqui e ali, tenho um certo reconhecimento. Em dez anos, ganhei um bom dinheiro, fiz minha carreira." Há caras com receio de dar o máximo, de buscar o limite. O (Roger) Federer e o (Rafael) Nadal criaram esse tipo de lacuna. Jogadores número 5 do mundo não querem ser número 1 nem número 2. Pensam: "O Federer e o Nadal são melhores do que eu mesmo."

"Senti falta do poder motivacional, da representatividade do Larri (Passos) no dia-a-dia, sem falar da parceria, do convívio"

ISTOÉ - Conseguiu atingir seu limite?
Guga - O tênis é um desafio pessoal. O adversário é momentâneo, entra um, sai outro. Não me mirava em ganhar desse ou daquele cara. Eu me preparava para estar um pouco melhor hoje, melhor amanhã e assim por diante. Eu era o número 1 do mundo, mas ainda procurava o detalhe, queria saber por que não encaixava determinada bolinha. Teve um momento da carreira, aos 25 anos, que eu não tinha dúvida de que seria meu melhor momento. O circuito todo estava descascado, assimilado na minha cabeça. Eu sabia onde podia render, o que teria de melhorar. Com a maturidade que eu estava, ali seria o momento de dar o pulo-do-gato e me manter no topo.

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21/11/2007


 
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