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''Proibir o troca-troca é burrice''
Ameaçado de perder seu mandato por decisão do STF, o estilista conclama seus 500 mil eleitores a protestarem nas ruas

Por HUGO MARQUES

ROBERTO CASTRO/AG. ISTOÉO deputado Clodovil Hernandes diz que se identifica muito com a personagem Miranda Priestly, do filme O diabo veste Prada, vivida pela atriz Meryl Streep. É a história de uma editora de moda oxigenada, poderosa e durona, inspirada na carreira de uma diretora da revista Vogue americana. “A Miranda se parece muito comigo”, diz Clodovil. “Ela é que tem coisas minhas.” Ao caminhar pelos longos corredores da Câmara vestindo Yves Saint- Laurent, Armani e, claro, Prada, as brancas melenas do deputado ao longe se parecem mesmo com as da personagem que ele admira. Clodovil provoca a curiosidade de seus colegas parlamentares. “Acabei de elogiar você lá no plenário”, aproximouse, por exemplo, o ex-militar linha-dura Jair Bolsonaro, na segunda-feira 8. “Não me elogie, me respeite”, devolveu Clodovil. Além do respeito como político, o deputado quer conquistar o direito de mudar de partido. Ele deixou o minúsculo PTC e foi para o PR. Agora, com a decisão do Supremo Tribunal Federal, está ameaçado de perder os 493 mil votos que conquistou com o menor dos investimentos declarados de que se tem notícia na política brasileira: R$ 14 mil gastos na campanha. Nesta entrevista a ISTOÉ, Clodovil, do alto de seus 70 anos, depois de já ter derrotado um câncer e um AVC, avisa que vai brigar com unhas e dentes pelo mandato.

ISTOÉ – O que o sr. achou da decisão do STF de acabar com o troca-troca?
Clodovil Hernandes – Eu acho uma burrice. Eles eram PRN e trocaram para PTC. Por que eles podem trocar de nome e eu não posso mudar de partido? O que é partido, diante dessa falcatruada, dessa sem-vergonhice toda?

ISTOÉ – Mas foi o PTC que lhe concedeu legenda para se eleger, e foi no PTC que votaram os seus eleitores.
Clodovil – Os meus eleitores nem sabem o que era PTC. E o PTC não fez nada pela minha candidatura. A única publicidade que eu tive foi gratuita, assim mesmo porque arrumei uma pessoa amiga minha que fez o filme da minha propaganda. Eles queriam o dinheiro. Eles recebiam R$ 45 mil por ano de ajuda para o partido (proporcional ao número de votos), e passaram a receber R$ 1,4 milhão por meu intermédio. Estão reclamando de quê? O dinheiro fica para eles. Agora, os meus votos eles não vão tomar nunca. Eu terei 500 mil votos em qualquer Estado em que me candidatar.

ISTOÉ – O que o atraiu no PR?
Clodovil – Enquanto eu estava no PTC, eu só fui aparecendo em coisas porque me movimentava. Na verdade, só fiz benemerência nesses nove meses que estive aqui, não fiz absolutamente nenhuma coisa útil ao País porque eles não deixaram. Para que perder tempo com essa coisa de mudar de partido? Para divulgar quem, para fazer o quê? Por várias horas, ficou a elegantérrima Ellen Gracie no vídeo, horas. Era muito melhor que se contasse a vida de uma pessoa poderosa como ela, alinhada, chique, para induzir as mulheres a serem assim. Era muito melhor do que perder tempo com essa besteira.

ISTOÉ – O político então não tem que ser fiel ao partido?
Clodovil – Mas o que é partido? É uma jogada entre eles. O homem quando faz leis, faz leis para si mesmo.

ISTOÉ – Agora que o sr. está no PR, o sr. vai votar com a base do governo?
Clodovil – Não. Eu fui com essa condição. Eu votarei de acordo com o meu caráter. Se eu achar que alguma coisa não tem nada a ver comigo, eu não voto.

ISTOÉ – O sr., então, não será fiel à orientação partidária?
Clodovil – Eu sou fiel ao meu povo. O governo é o meu povo. Quando os políticos saem daqui, eles fazem parte do povo. As decisões tomadas aqui refletem na vida deles também. Eles esquecem disso. Às vezes, eles votam aqui por interesses pessoais e, quando chegam lá fora, eles apanham.

ISTOÉ – Agora, na base do governo, o sr. poderá nomear pessoas para cargos no Executivo e liberar dinheiro de emendas orçamentárias com mais velocidade. O sr. irá exercer esses direitos?
Clodovil – Não quero absolutamente direito nenhum. Eu quero concluir o meu mandato fazendo coisas para ajudar as pessoas, porque, quando eu saio daqui, eu sou uma delas. Eu freqüento as mesmas ruas, eu tenho os mesmos problemas. A fama não é nada nessa hora. O que eu quero? Quero transformar os endereços em locais onde se pode andar.

ISTOÉ – Há quem diga que rolam malas de dinheiro no Congresso. O sr. já recebeu alguma proposta aqui dentro, para mudar de partido?
Clodovil – Se alguém me oferecer, eu conto. Esses dois diamantes aqui nos meus dedos custam uma fábula, são meus, e eu tenho há muito tempo. Eu não vim para cá para buscar nada, eu vim porque já tenho.

ISTOÉ – Quais são os seus planos políticos no novo partido? Disputar a Prefeitura de São Paulo, ou de Ubatuba?
Clodovil – Ubatuba pode ser. Meu título é de Ubatuba. De São Paulo, eu não posso, porque não tenho o título de São Paulo. Se eu me candidatasse, eu seria eleito. Mas não quero ser prefeito de nada, quero fazer outras coisas. Eu vim para cá porque fui mandado. Acredito em Deus. Não é de maneira religiosa, carola, mas eu tive um insight (introspecção) mesmo. Eu sou muito dado a essas coisas. O universo é Deus. Deus de igreja não existe. Esse Deus é uma criatura criada para ser vendida aos pedaços, como carne num açougue.

FELIPE BARRA
"Era muito melhor contar a vida de uma pessoa chique como Ellen Gracie do que perder tempo com essa besteira de trocar de partido"

ISTOÉ – O PR é um dos partidos mais envolvidos com o escândalo do mensalão. O presidente do partido, Waldemar Costa Neto, teve que renunciar ao mandato para não vir a ser cassado. O sr. não se sente desconfortável com isso?
Clodovil – Pergunta o que eu falei para o Waldemar agora mesmo? Ele me disse que queria falar com o presidente do PTC. Eu respondi: “Que desilusão.” Ele perguntou: “Por quê? Ele é meu amigo.” Eu respondi: “Mas isso que é minha desilusão, porque seus amigos são muito ruins. Troca de amigos.”

ISTOÉ – Mas e quanto às denúncias contra Waldemar e o PR?
Clodovil – Mas você pode provar que é verdade o que dizem que ele fez? Você não pode provar nada. No plural, qualquer coisa pode ser dita. Se a carapuça servir, veste. Mas os caras que participaram de todas essas coisas, da história dos dinheiros, estão todos aqui com a cara grande que Deus deu a eles. Eu não viria. Se fosse eu, eu teria vergonha. Nunca tive problema nenhum de ser homossexual. Eu teria vergonha de ser ladrão, bandido. Isso é uma coisa que não admito que conversem comigo, pois isso é um assunto para Deus. Ele que me fez, ele me explicará um dia porque eu nasci homossexual. Nasci, mas fui procurar me parecer com Leonardo da Vinci, com Michelangelo, Santos Dumont.

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17/10/2007


 
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