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Dos 126 mil brasileiros que têm infarto do miocárdio por ano, apenas 26 mil recebem o tratamento certo. Os dados são da Sociedade Brasileira de Hemodinâmica. Isso quer dizer que a maioria dos infartados não é atendida com a rapidez e a qualidade necessárias para evitar seqüelas ou morte. No momento em que estão sofrendo o ataque cardíaco, deveriam receber a aplicação de uma droga anticoagulante na veia para conter a formação do coágulo que entope artérias ou serem submetidos à angioplastia - introdução de um cateter na artéria atingida com o objetivo de desobstruí-la. Mas, a contar pelos números, isso não acontece como deveria. Esse quadro está no centro das preocupações do cardiologista Sérgio Timerman, diretor do Laboratório de Pesquisa e Treinamento em Emergência do Instituto do Coração, em São Paulo, e artífice da nova faculdade de Medicina Anhembi-Morumbi, primeiro investimento no Brasil do grupo americano de ensino Laurent, dono de escolas em 20 países. "Estamos fazendo legiões de seqüelados no País por culpa do atendimento médico ineficiente. Dar a essas pessoas a assistência correta é uma questão humanitária com sérias implicações econômicas", avalia Timerman. Nesta entrevista, ele analisa as causas do problema, dá exemplos de iniciativas que transformam a comunidade em aliada para salvar vidas e critica duramente a falta de conhecimento dos médicos. E explica como pretende formar especialistas em emergência, assim que a nova faculdade começar a funcionar, em janeiro de 2008.
ISTOÉ - Por que os médicos não atendem corretamente os casos de emergência?
Sérgio Timerman - No Brasil, nossa emergência está em situação de emergência. Aqui não se dá a devida importância a esse atendimento. São serviços tratados com descaso e relegados a segundo plano. A maioria dos profissionais está ali para fazer bico assim que termina a faculdade. Às vezes os médicos dão um plantão por longas horas e em seguida vão para outro serviço sem condições físicas. Muitos nem são emergencistas. E é aí que mora o grande perigo porque muitas doenças acabam sendo mal tratadas.
ISTOÉ - Qual é o trabalho do emergencista?
Timerman - São pessoas que trabalham em áreas críticas, como a terapia intensiva, o pós-operatório e as emergências no serviço pré-hospitalar. O que assusta no Brasil é as pessoas não perceberem a gravidade de ter profissionais sem conhecimento trabalhando nessas áreas.
ISTOÉ - Qual é a conseqüência de ter gente despreparada na linha de frente?
Timerman - A emergência é uma área complexa, que exige treinamento e forma de raciocínio muito rápido. A maioria não sabe fazer isso. Perdem-se vidas e há muitos riscos. Mas há outros dados que ilustram o impacto dessa atitude. Por exemplo, de 10% a 12% das pessoas atendidas nos nossos pronto-socorros deixam os serviços sem ter sido diagnosticadas e, portanto, sem tratamento. Algumas horas depois, infartam ou morrem fora do hospital. Esses pacientes foram buscar auxílio e não foram diagnosticados. O mesmo acontece com outras patologias, como o acidente vascular cerebral (conhecido como derrame). Muitas vezes, o paciente recebe alta antes que o AVC se manifeste. Por que? Porque não foi feita uma boa avaliação clínica. Aí tem alta e acaba ficando com alguma seqüela.
ISTOÉ - O que acontece com as 100 mil pessoas que não são tratadas devidamente?
Timerman - Elas podem morrer ou ficar seqüeladas. Imagine isso do ponto de vista da economia da saúde. O indivíduo que não recebeu tratamento adequado para o infarto, por exemplo, será uma pessoa que vai passar a vida com insuficiência cardíaca (incapacidade de o coração bombear sangue para o resto do corpo), com uma qualidade de vida ruim e dependente até morrer dali a alguns anos. Estamos criando legiões de pessoas seqüeladas no País, e isso poderia ser evitado.
ISTOÉ - Quantas pessoas morrem por falhas no atendimento?
Timerman - Segundo o Datasus, há 50 mil mortes por infarto no Brasil. Boa parte deve ser pelos problemas sobre os quais falei acima. São poucos os hospitais em condições de fazer a semana toda angioplastia ou stent (espécie de mola colocada para abrir a artéria entupida) e nem todos têm a medicação para dissolver o coágulo. E a questão crucial hoje é que mesmo em hospitais que possuem as medicações para dissolver o coágulo pode haver demora ou mesmo uma falha no tratamento do infarto.
ISTOÉ - Pode citar um lugar onde já viu isso ocorrer?
Timerman - Fizemos um trabalho de conscientização da população médica em várias cidades do Norte e Nordeste. Nosso objetivo era ensinar os médicos que havia uma medicação que dissolve o coágulo ou então que se deve mandar o paciente ao cateterismo. Depois de um tempo, vimos que muitos dos medicamentos comprados pelo governo perderam a validade sem ter sido usados. Fiquei perplexo e enviei uma equipe para saber o que aconteceu. Eles descobriram que os médicos tinham medo de usar a medicação. Agora enviamos equipes para dar plantão com os outros médicos, ensinando como se faz o atendimento. É a única maneira que encontramos para fazer com que isso mude.
"Muitos médicos dos serviços de emergência estão ali apenas para fazer um 'bico' depois da faculdade" |
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