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MENSALÃO
Valério revê o jogo
Acusado de operar o mensalão, o publicitário sabe que pode ser condenado a até 62 anos de prisão, sente-se injustiçado e prepara uma estratégia de ataque

Por LEONARDO ATTUCH E HUGO MARQUES

MONTAGEM SOBRE FOTOS DE LALO DE ALMEIDA/FOLHA IMAGEM E ANDERSON SCHNEIDER/AG. ISTOÉ
NO ATAQUE Assustado com a decisão do STF, Marcos Valério pode comprometer novos petistas e também tucanos

Os novos fios de cabelo, resultado de um implante recente, representam apenas a transformação visível do empresário mineiro Marcos Valério de Souza, ex-dono das agências DNA e SMPB. Apontado como um dos principais operadores do mensalão, ele acaba de virar réu, por decisão do Supremo Tribunal Federal, e será julgado pelos crimes de lavagem de dinheiro, peculato, corrupção ativa, formação de quadrilha e evasão de divisas. Muito além da aparência, há um novo Valério, que se sente isolado e já prepara uma nova estratégia para enfrentar as acusações – desta vez, no ataque. Até a decisão do STF, que acolheu a denúncia por crimes cujas penas podem chegar a 62 anos de prisão, ele se mantinha frio. Controlava as emoções e parecia disposto a manter um acordo informal com os políticos para os quais trabalhou, tanto do PT quanto do PSDB, de jamais revelar o grau de envolvimento de cada um deles em relação aos esquemas de financiamento irregular de campanhas. Depois do julgamento da semana passada, Valério ficou transtornado. A amigos íntimos, emitiu os primeiros sinais de sua nova postura. “Como eu posso ter aqui cinco estrelas no peito, enquanto os chefes têm uma ou duas?”, indagou, referindo-se aos cinco crimes pelos quais terá de responder. Contra o ex-ministro José Dirceu, o tesoureiro Delúbio Soares e o deputado José Genoino, por exemplo, pesam apenas os crimes de formação de quadrilha e corrupção ativa. Outros petistas, como Silvio Pereira e Luiz Gushiken, sofreram uma acusação apenas: formação de quadrilha e peculato, respectivamente. “Nada disso é justo”, tem dito Valério, com muita insistência, nos últimos dias. Para agravar ainda mais seu estado de nervos, o empresário mineiro ainda carrega uma dívida fiscal de R$ 120 milhões das antigas agências de publicidade e, na quarta-feira 29, perdeu uma ação em Brasília na qual cobrava uma dívida de R$ 100 milhões do PT, referente aos empréstimos que avalizou – agora, Valério é devedor ao Rural e ao BMG. “Ele está num beco sem saída”, confirmou à ISTOÉ um delegado federal que participa das investigações.

Depois da sentença do STF, Valério decidiu reavaliar sua estratégia por diversos motivos. Sua expectativa era responder, no máximo, por lavagem de dinheiro no inquérito do mensalão e por sonegação fiscal, em outros processos que correm em paralelo. “A dimensão dada a ele foi muito exagerada”, afirmou à ISTOÉ seu advogado criminalista Marcelo Leonardo. Isso porque Valério não era a fonte dos recursos (os bancos Rural e BMG), não exercia o papel de mandante (que cabia aos dirigentes petistas no caso do mensalão e à turma do senador Eduardo Azeredo no duto mineiro), nem era o maior beneficiário do esquema (os políticos da base aliada e os fornecedores das campanhas). “O simples operador foi trazido para o papel de figura central”, diz Leonardo. Pessoas próximas ao empresário mineiro têm dito a ele que ficar calado não valeu a pena e chegaram até a sugerir que ele adotasse soluções radicais. Uma das propostas extremas, depois do julgamento do mensalão, foi a de que Valério convocasse uma entrevista coletiva, em plena Praça dos Três Poderes, em Brasília. Valério sorriu quando recebeu a idéia, mas é improvável que a acate. O mais plausível é que, discretamente, ele comece a revelar nomes de algumas figuras importantes que tinham conhecimento do esquema de financiamento político do PT. Um deles, o ex-ministro da Fazenda e atual deputado Antônio Palocci, que não foi atingido por nenhuma labareda no escândalo do mensalão. No primeiro mandato do presidente Lula, Valério teve algumas reuniões com Palocci, no Hotel Paulista Plaza, em São Paulo, onde discutiu a compensação a ser dada ao Banco Rural em função dos empréstimos feitos para o PT. A operação seria a incorporação do Banco Mercantil do Brasil, que daria um ganho de R$ 200 milhões aos mineiros do Rural. A pedido de Palocci, que prometeu resolver a questão, Valério foi recebido em nada menos que dez ocasiões pelos então diretores do Banco Central, Gustavo do Vale e Paulo Sérgio Cavalheiro. Depois, por outras razões, o negócio travou. Mas, se Palocci sabia, outros talvez soubessem.

VALÉRIO TEM DITO A AMIGOS QUE JÁ GRAVOU 11 HORAS DE DEPOIMENTO EM UM DVD QUE ELE GUARDA A SETE CHAVES

Valério também estuda mudar o tom das conversas reservadas que vem mantendo com o delegado Luiz Flávio Zampronha, na sede da Polícia Federal, em Brasília. De um ano para cá, ele já esteve lá sete vezes. Esses encontros têm sido 10% formais e 90% informais. Na parte formal, pouca coisa se diz de relevante. Na informalidade, é bem diferente. Até agora, Valério não se prestou ao papel de delator e também não entregou nenhum figurão do tucanato mineiro, que é um dos focos das investigações de Zampronha. Mas, embora não tenha dado nomes, Valério ajudou a PF a entender o funcionamento do esquema, que veio a público a partir de uma reportagem de ISTOÉ com a lista de Cláudio Mourão, então tesoureiro do governador Eduardo Azeredo. Foram informações relevantes e o procurador-geral da República, Antonio Fernando de Souza, confirmou ao repórter Rodrigo Rangel que irá encaminhar, ainda em setembro, a denúncia contra Azeredo por peculato. ISTOÉ teve acesso ao relatório interno da PF de 170 páginas e nele constam outros nomes graúdos. Um deles, o do atual governador de Minas Gerais, Aécio Neves. “Há fortes indícios de que o mensalão mineiro abasteceu também as campanhas de Aécio”, diz um dos investigadores do caso. Nos documentos, também consta o atual ministro Walfrido dos Mares Guia, que coordenou a campanha de Azeredo em 1998 e hoje é o articulador político do governo Lula. A PF encontrou ainda duas dezenas de funcionários de gabinetes de deputados e vereadores que recebiam dinheiro, também no Banco Rural, só que em Belo Horizonte, para repassá-lo aos políticos com os quais trabalhavam. A Polícia Federal não indiciou ninguém antes de enviar o relatório para o Ministério Público Federal e caberá ao procurador Antonio Fernando, que já deu sinais explícitos de que não é de aliviar a barra de ninguém, escolher as condutas criminais.

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31/8/2007


 
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