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"Glamour e drama estão no coração da Versace"
Dez anos depois da morte do fundador da grife, sua irmã revela como foi difícil substituir o badalado estilista Gianni Versace

Por ELIANE TRINDADE

ANDREW ROSS/GETTY IMAGESO lendário La Scala de Milão foi o local escolhido para homenagear Gianni Versace no décimo aniversário de sua morte. Em 15 de julho, o palco do majestoso teatro se abriu para reverenciar um gênio da moda – assassinado dez anos antes na mesma data em Miami – com a arte que ele mais apreciava: o balé. Sob a direção de Maurice Béjart, amigo e parceiro de Gianni em 12 montagens, foi encenado o espetáculo Grazie, Gianni, com amore (Obrigado, Gianni, com amor), tributo que teve por trás Donatella Versace, irmã e sucessora do estilista italiano morto aos 50 anos. Em entrevista à ISTOÉ, a diretora criativa da marca falou sobre a emoção de reverenciar a memória de um estilista que foi também artista. Relatou os bastidores do espetáculo no La Scala, que reuniu estrelas como Jessica Alba, tops como Claudia Schiffer e Naomi Campbell, além de mestres da costura, como Karl Lagerfeld.

Donatella finalmente pode comemorar. Pela primeira vez em dez anos, a Versace, sob a sua batuta e do irmão Santo, dá sinais de que saiu da crise que culminou na reestruturação do grupo familiar e no fechamento de linhas, como a marca jovem Versus. Donatella também parece ter saído do inferno astral, que a levou a se internar em 2005 numa clínica de reabilitação para se livrar da dependência de álcool. Na entrevista a seguir, a estilista italiana, de 52 anos, admitiu o peso de suceder o irmão e falou sobre o orgulho de manter de pé o legado de Gianni, além do desafio de traduzir para o século XXI o estilo que ele criou. Donatella se define como uma típica “mamma italiana” e diz esperar da próxima geração da família uma contribuição para o futuro da Versace. Entre eles, estão seus dois filhos, Daniel, 19 anos, e Allegra, 21, que é herdeira de 50% da fortuna deixada pelo tio, estimada em US$ 700 milhões, e que luta contra a anorexia.

ISTOÉ – Como foi a última década sem Gianni Versace para conduzir o negócio e as coleções da grife ?
Donatella Versace – Os últimos dez anos foram muito, muito pesados. Eu não perdi apenas o meu irmão, mas perdi também meu amigo e meu professor. Eu não esperava que fosse confiado a mim o papel de estilista da Versace e todo esse processo foi difícil, especialmente no começo, quando eu ainda estava vivendo o luto pela perda de Gianni. Mas foi a memória dele que me manteve forte. Ganhei confiança no meu trabalho e comecei a me envolver com a Versace (Antes, ela desenhava apenas a segunda linha da marca, a Versus).

ISTOÉ – Como a Versace manteve viva a memória de seu criador?
Donatella – Eu sempre penso no Gianni, no que ele faria se estivesse no meu lugar. Gianni foi um inovador e seu trabalho era um reflexo do seu tempo. Ele acreditava que a moda fazia parte da cultura e, por isso, estou certa de que se ele estivesse vivo hoje desenvolveria suas criações totalmente afinadas com o novo século. Isto é o que penso estar fazendo – pegar o glamour e a sensualidade da Versace e interpretá-los de uma maneira moderna para a mulher de hoje.

ISTOÉ – Qual foi o maior ensinamento que Gianni Versace lhe deixou?
Donatella – Gianni me ensinou a importância de ser culturalmente relevante e como encontrar minha própria voz como estilista contemporânea. Eu sempre o sinto por perto, olhando por mim e me guiando.

ISTOÉ – Quais foram os momentos mais difíceis ao longo deste processo de substituição do Gianni Versace, tanto na parte executiva como na de criação?
Donatella – É claro que foi extremamente difícil. Eu tive que aprender sobre o negócio enquanto fazia e tudo isso sob os holofotes da mídia. Foi realmente pesado e certamente nos primeiros anos eu sentia que estava fingindo fazer o trabalho do meu irmão. Mas recentemente ganhei confiança e sinto que estou desenvolvendo minha própria voz, que é definitivamente Versace. Eu aprendi com Gianni acima de tudo, mas já começo a vislumbrar os sinais da minha contribuição pessoal para a marca. Minha direção veio de dentro. Eu sempre acreditei no trabalho duro, assim como Gianni. Sucesso nunca vem fácil. Agora, estou motivada em manter o sucesso do nosso negócio em memória de Gianni e também em construir um grande futuro.

ISTOÉ – Como a sra. vê a Versace de hoje em relação a dez anos atrás?
Donatella – É inegável o glamour e o sex appeal que há em tudo que a Versace faz. Isto é parte da imagem que o meu irmão criou – a idéia de que a roupa da mulher serve para deixar quem a usa mais confiante e mais sexy. E, claro, fazer com que virem a cabeça quando elas passem. Eu também quero fazer as mulheres se sentirem maravilhosas e que pareçam fabulosas. Todas as coleções que crio, tenho isso em mente, levando em conta que o approach do século XXI é muito mais sensual do que explicitamente sexual. A chave para esta sensualidade é fazer com que a mulher pareça forte. As mulheres Versace sabem o que querem, estão no controle. Na minha experiência, os homens acham isso extremamente atraente.

"Gianni me ensinou a importância de ser culturalmente relevante. Sempre o sinto por perto, olhando por mim e me guiando”

ISTOÉ – De que maneira os dez anos da morte de Gianni foram lembrados?
Donatella – Acabamos de ter um evento no teatro La Scala de Milão com um balé dedicado aos décimo aniversário de morte do Gianni (o estilista foi assassinado por Andrew Cunanan na entrada de sua mansão em Miami Beach. O assassino cometeu suicídio ao ser cercado pela polícia). Foi simplesmente incrível. Tivemos uma noite maravilhosa que foi ainda mais especial pela prazer de ter tantos amigos que se dispuseram a vir em honra do meu irmão Gianni. A performance foi simplesmente fantástica e fiquei muito tocada pela forma como Maurice Béjart tratou a memória do meu irmão. Foi exatamente o que eu esperava dessa homenagem. Quando comecei a discutir como seria a melhor forma de celebrar a vida do Gianni, logo imaginei alguma coisa encenada no La Scala, tanto pelo fato de ele ter trabalhado maravilhosamente lá (foi responsável pelo figurino de balés como “Morte Súbita”, de 1984, e “Barocco Bel Canto”, de 1997) como também por ser o teatro um verdadeiro patrimônio de Milão, sua cidade adotiva.

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8/8/2007


 
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