O médico Adib Domingos Jatene, 78 anos, acaba de receber uma homenagem memorável. Por decisão do governo da Grécia e da Sociedade de Cardiologia daquele país, foi laureado como um dos sete homens sábios do planeta no campo da cirurgia cardiovascular. Um dos feitos que o tornaram respeitado internacionalmente foi a invenção da cirurgia que corrige uma grave alteração na anatomia do coração Por MÔNICA TARANTINO dos recém-nascidos, chamada de transposição das grandes artérias, mal incompatível com a vida. Mas há muitos outros. A homenagem, feita em maio, tocou fundo o médico nascido em Xapuri, no Acre, que há 53 anos milita para levar a rotina de pesquisador em conjunto com a busca de soluções para a saúde brasileira. Um dos principais responsáveis pelo crescimento de duas das maiores instituições da cardiologia nacionais, o Instituto do Coração e o Instituto Dante Pazzanese, em São Paulo, Jatene também foi secretário estadual e ministro da Saúde. Desde 1976, dirige o Hospital do Coração. Nesta entrevista, diz que está muito preocupado com os descaminhos da formação dos jovens médicos, revela os mecanismos usados pelo governo para diminuir o dinheiro público para a saúde e chama a atenção da elite brasileira para que tenha mais responsabilidade social.
ISTOÉ - Hoje há cerca de 160 escolas de medicina no País. Em 96, eram 82. Precisamos de tantas?
Adib Jatene - Há uma desarrumação. O Ministério da Educação acredita que deve formar o maior número de profissionais e que o mercado irá selecionálos. Em algumas profissões, não há possibilidade de emprego para mais de 15% dos formandos. Porém, na medicina, o mercado não tem condição de selecionar. Portanto, é necessário haver estruturas para formar um médico capacitado ao atendimento que a população precisa e, sobretudo, às emergências. Mas o problema é que há muitas escolas de medicina sem locais de treinamento nem hospitais para os estudantes. Isso prejudica a formação. As escolas fazem convênios com hospitais privados e colocam os alunos lá, sem supervisão. O resultado é que a residência médica (pósgraduação para completar a formação do estudante de medicina) acaba sendo indispensável para a formação. Como pouco mais da metade dos alunos consegue uma vaga, quem fica sem residência vai trabalhar nos serviços de emergência.
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"A divisão da medicina em 53 áreas fragmentou o paciente. Diante de qualquer sintoma, ele vai direto ao especialista" |
ISTOÉ - O primeiro emprego de muitos jovens médicos é nos prontos-socorros, sem o treinamento adequado?
Jatene - Exatamente. É um problema muito sério que começa a ser discutido.
ISTOÉ - Como impedir que médicos despreparados atendam à população?
Jatene - Não é o diploma que autoriza o indivíduo a exercer a profissão, é o registro no Conselho Regional de Medicina, o CRM. Mas ele virou uma espécie de cartório. O recém-formado leva o diploma e pega a carteira. Mas o Conselho Federal de Medicina, várias entidades e profissionais como eu estamos pleiteando a criação de uma forma de avaliação para conceder a carteira profissional. Equivaleria ao exame da Ordem dos Advogados do Brasil. Com a multiplicação das escolas, essa medida é mais do que necessária. Não se pode autorizar o indivíduo que não está preparado a exercer a medicina.
ISTOÉ - O sr. lançou há pouco o livro Cartas a um jovem médico - uma escolha pela vida. Qual é o recado ?
Jatene - Quis lembrar que a medicina é uma profissão peculiar. Não trata das coisas que as pessoas têm. Trata da pessoa. Não pode ser um negócio, não é um meio de enriquecer, de conquistar posição social. Pode acontecer, mas o seu objetivo é ajudar pessoas que sofrem.
ISTOÉ - Há uma crise de valores?
Jatene - Na minha avaliação, o mundo globalizado e tecnológico trouxe muitos benefícios, mas trouxe grandes prejuízos. O maior é que as pessoas passam a se movimentar por interesse, esquecendo valores universais como ética, honra, lealdade, gratidão, amizade, honestidade, que ficaram quase em segundo plano. E isso não pode ser aceito em uma profissão como a medicina. O médico não faz algo porque aquilo irá beneficiá-lo. Ele faz porque vai beneficiar o doente.
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