LULA GOVERNA MELHOR COM A OPOSIÇÃO
Luciano Suassuna
Se a política fosse ciência exata, o governo Lula estaria diante de uma maioria legislativa como há muito o Brasil não conhecia. Deputados de partidos que dizem apoiar o governo somam 365 votos de 513. Os senadores são 50 de 81. É uma base de sustentação capaz de aprovar qualquer projeto, inclusive emendas constitucionais. Mas, passados quatro meses da posse dos novos parlamentares, as reformas do segundo mandato andam devagar, quase parando. Nem o PAC, menina-dos-olhos do presidente, conseguiu encontrar no Congresso algum de seus propósitos: aceleração ou crescimento. Qual o motivo de tamanho imobilismo?
A explicação mais comum entre os líderes partidários se refere à predominância dos casos policiais no Legislativo. Transformado em delegacia, argumentam, o Legislativo trava. É uma desculpa esfarrapada que tenta transferir para a Polícia Federal, o Ministério Público, o Tribunal de Contas, a Justiça, a imprensa - e quem mais os importunar - a culpa pela paralisia.
Outra explicação corrente é o excesso de Medidas Provisórias, que atolaria a pauta. Com uma produção média superior a uma MP por semana, o Executivo não tem do que se orgulhar, mas o argumento dos deputados vira desculpa quando se registra que, de 214 proposições tramitando atualmente em regime de urgência, apenas 23 são MPs.
O Congresso vota menos do que deveria porque os parlamentares governistas não têm unidade, organização ou comando. Visto de perto, o amontoado de problemas e interesses pessoais, regionais, ideológicos e financeiros dos 365 deputados e 50 senadores pró-Lula faz com que, na prática, uma parcela da base de sustentação esteja sempre brigando com outra ala. É algo que gera um curioso paradoxo - o presidente sai preservado do mata-esfola da sua coalizão, mas os projetos vitais só ganham agilidade quando a oposição comparece com votos a favor do governo.
Luciano Suassuna é Diretor Editoral-Adjunto de ISTOÉ
CRESCER OU NÃO CRESCER, A QUESTÃO DA ECOECONOMIA
Luiz Fernando Sá
No auge da globalização, uma corrente de economistas quer parar o mundo. Liderada por gente antes tida como alternativa, como o polemista Lester Brown e o professor Bob Costanza, da Universidade de Vermont, essa trupe diz que estamos fazendo tudo errado e que devemos dar vários passos para trás. Em síntese: pôr fim ao modelo econômico baseado na busca do crescimento e viver cada vez mais em função dos recursos da vizinhança. Para eles, a Terra não tem como suprir as demandas futuras dos países em expansão - e, assim, o crescimento só nos levará, cada vez mais, ao colapso do planeta. Só pisando no freio é que conseguiríamos retomar o equilíbrio.
A ecoeconomia e seus expoentes têm produzido interessantes estudos sobre a relação do homem com a riqueza e o meio ambiente. Sua questão básica: afinal, qual a finalidade da economia? Enquanto os mais ortodoxos respondem produzir riqueza, os ecoeconomistas afirmam que o objetivo primordial deve ser bem-estar e felicidade. Seus estudos procuram demonstrar que a satisfação não se obtém a partir da acumulação ilimitada de bens e que não há sentido em se querer sempre mais. Sugerem que as pessoas se voltem para suas comunidades, consumam preferencialmente o que elas produzem, busquem alternativas energéticas locais e construam modelos de convivência baseados na interdependência dos vizinhos. É quase como viviam nossos avós, com a diferença de que hoje temos a tecnologia a encurtar distâncias entre uma e outra comunidade.
Tudo isso tem um quê nostálgico, que pode encantar quem vive em países ricos e teve suas necessidades saciadas. A questão é: como reduzir o ritmo de expansão de nações em desenvolvimento, que ainda não chegaram lá? Ou como propor à consumista sociedade americana que abra mão de seus supérfluos? Tanto lá quanto cá, a ecoeconomia ainda parece um libelo quixotesco.
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