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RENATO VELASCO
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"Não queremos ser globais, mas os mais importantes da América Latina"
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P E T R O B R Á S
Do óleo à energia
Henri Philippe Reichstul conduz a transformação da estatal, mas descarta a privatização neste governo
Hélio Contreiras e Liana Melo
A Petrobras já passou por muitas provações, mas a pior ainda está por vir. Seus executivos estão preparando o terreno para transformar este gigante estatal numa empresa de energia. Isto significa que, no próximo milênio, a Petrobras pretende deixar de ser vista apenas como uma empresa de petróleo. A guinada ocorre num momento em que o País passa a ser disputado pelos maiores grupos estrangeiros de petróleo e gás. “Além da excelência tecnológica, temos de conquistar a excelência empresarial”, sonha alto seu presidente, Henri Philippe Reichstul. Em seu gabinete, no 23º andar do edifício-sede da estatal, no centro do Rio, este francês naturalizado brasileiro fala calmamente sobre os audaciosos planos para o futuro. Seu sonho é ver esta megaempresa de 36 mil funcionários e uma produção de 1,1 milhão de barris de petróleo ocupando a liderança do mercado latino-americano. “Não queremos ser uma empresa global, mas a mais importante empresa de energia da região.” ISTOÉ – Como será feita esta passagem de uma estatal de petróleo para uma empresa de energia? Henri Philippe Reichstul – Vamos abrir mão de mercado em vários segmentos. Pela própria lei do petróleo, por exemplo, fomos obrigados a separar a atividade de transporte. Criamos a Transpetro. Abrimos também a Gaspetro. Neste caso, não fomos obrigados por nenhuma decisão regulatória – foi uma opção estratégica. Não podemos continuar sendo monopolistas em tudo. Na área de exploração e produção de petróleo foram feitas parcerias e outras empresas estão optando em operar sozinhas no mercado brasileiro. O mesmo está ocorrendo na distribuição. No refino, já existem duas refinarias pequenas privadas. Acredito, no entanto, que exista espaço para, no mínimo, duas novas refinarias. ISTOÉ – Oque a Petrobras fará para não perder a liderança? Reichstul – Existem três vetores no nosso planejamento estratégico. O primeiro é continuar ocupando a liderança na área de petróleo. Isto significa aumentar as reservas e a produção. Outro segmento é o de gás natural. Este mercado é ainda muito incipiente no Brasil. E a terceira via é a internacionalização. Já estamos hoje em 12 países. Somos recordistas em exploração em águas profundas, assim como também em produção. Estamos produzindo petróleo a 1.853 metros de profundidade. Outro recorde é o de exploração, onde já chegamos a 2,6 mil metros de profundidade. Nós e a Shell somos as duas únicas empresas mundiais com liderança tecnológica em águas profundas. Pelo menos nestas três áreas, a Petrobras não pretende abrir espaço para a concorrência. ISTOÉ – Apesar de todos estes planos, a Petrobras ainda corre o risco de ser privatizada? Reichstul – A privatização da Petrobras não é uma questão econômica, muito menos de preço. Posso garantir que o governo não pretende privatizá-la nem inteira nem aos pedaços. O ônus político de privatizar a Petrobras não compensa nenhum futuro ganho econômico. ISTOÉ – Mas neste modelo globalizado, defendido pelo próprio governo, existe espaço para uma empresa estatal como a Petrobras? Reichstul – O nosso maior desafio será transformar esta empresa numa grande corporação de propriedade do Estado. A Petrobras já tem hoje uma flexibilidade de atuação muito maior do que no passado. Hoje, por exemplo, não nos sentimos manietados em tomar nenhuma decisão estratégica. Vamos investir nos próximos seis anos US$ 32,9 bilhões e continuar crescendo. Queremos conquistar uma liderança regional. Não queremos ser uma empresa global, mas sim a maior empresa da América Latina. ISTOÉ – Apesar de não haver tantas amarras, a empresa não paga salários de mercado. A Petrobras não estaria correndo o risco de perder seus melhores profissionais? Reichstul – Estamos muito preocupados com isso. Por orientação do próprio Conselho de Administração da Petrobras, já contratamos uma empresa de consultoria para nos ajudar a resolver este problema. Tradicionalmente, as estatais pagam salários baixos acima de mercado e salários altos abaixo de mercado. No meu caso, por exemplo, a defasagem é uma loucura. Deveria estar ganhando dez vezes mais. Mas a flexibilização da lei do petróleo já prevê a possibilidade de a Petrobras ter uma política salarial independente. Só precisamos colocar isto em prática. ISTOÉ – No primeiro semestre deste ano, a empresa amargou um prejuízo de US$ 1,5 bilhão. É possível tapar este buraco até o final do ano? Reichstul – Este prejuízo foi provocado pela desvalorização do real e o baixo preço do petróleo no mercado internacional. Estamos apostando numa recuperação até porque o preço do petróleo subiu de US$ 10 para US$ 26, o barril. Não posso, no entanto, antecipar resultados. Somos uma empresa de capital aberto e seguimos regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Mais: estamos torcendo para repetir os números do ano passado quando faturamos US$ 25 bilhões e lucramos R$ 11 milhões.
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